A Europa quer acabar sua perigosa dependência tecnológica da internet dos EUA

Foto aérea da cidade sueca de Helsingborg para ilustrar o post cujo título diz que a Europa quer acabar sua perigosa dependência tecnológica da internet dos EUA.
Foto da cidade sueca de Helsingborg, onde existe um projeto piloto para testar como diversos serviços públicos funcionariam na eventualidade de um apagão digital. Crédito: Bruno/Pixabay.
  • A Europa concentra cerca de 70% de seu mercado de nuvem em empresas americanas, o que aumenta suas vulnerabilidades técnicas, geopolíticas e de segurança.
  • Governos e regiões europeias já estão investindo em alternativas de código aberto e infraestrutura própria.
  • Os sistemas digitais devem ser tratados com a mesma seriedade que são os portos, estradas e redes elétricas: com o controle europeu.

Imagine se a internet parar de funcionar repentinamente. Os sistemas de pagamento do supermercado local ficarem fora do ar. Os sistemas de saúde de seu hospital entrarem em colapso. Seus aplicativos de trabalho e todas as informações que eles contêm desaparecerem.

Você tenta buscar informações, mas enfrenta dificuldades para se comunicar com familiares e amigos ou para obter as últimas atualizações sobre o que está acontecendo, já que as plataformas de mídia social estão todas fora do ar. Assim como alguém pode puxar a tomada de seu computador, é possível desligar o sistema ao qual ele se conecta.

Esse não é um cenário absurdo. Falhas técnicas, ataques cibernéticos e desastres naturais podem derrubar partes essenciais da internet. E como o governo dos EUA faz exigências crescentes aos líderes europeus, é possível imaginar a Europa perdendo acesso à infraestrutura digital fornecida por empresas americanas como parte de um processo de barganha geopolítica.

No Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, a presidente da União Europeia (UE), Ursula von der Leyen, destacou o “imperativo estrutural” para a Europa “construir uma nova forma de independência”, incluindo em sua capacidade tecnológica e segurança. De fato, movimentos já estão sendo feitos em todo o continente para começar a recuperar alguma independência da tecnologia dos EUA.

Um pequeno número de grandes empresas de tecnologia sediadas nos EUA controla hoje uma grande parte da infraestrutura mundial de computação em nuvem, caracterizada como uma rede global de servidores remotos que armazenam, gerenciam e processam todos os nossos aplicativos e dados. Há relatos de que a Amazon Web Services (AWS), a Microsoft Azure e a Google Cloud detêm cerca de 70% do mercado europeu, enquanto que os provedores europeus têm apenas 15%.

Minha pesquisa apoia a ideia de que depender de poucos provedores globais aumenta a vulnerabilidade dos setores público e privado da Europa, incluindo o risco de interrupções na computação em nuvem, seja por problemas técnicos, disputas geopolíticas ou atividades maliciosas.

Dois exemplos recentes (ambos resultantes de falhas técnicas aparentes) são o incidente da AWS em outubro de 2025, que durou horas e afetou milhares de serviços como aplicativos bancários em todo o mundo, e o grande incidente da Cloudflare dois meses depois, que tirou do ar plataformas de comunicação como LinkedIn e Zoom.

Interrupções de serviços em nuvem podem acontecer por problemas técnicos, disputas geopolíticas ou atividades maliciosas. Crédito: Christina Morillo/Pexels.

O impacto de uma grande interrupção de energia nos serviços de computação em nuvem também foi demonstrado quando a Espanha, Portugal e parte do sudoeste da França sofreram um enorme apagão em abril de 2025.

O que acontece em um apagão digital?

Há sinais de que a Europa está começando a levar mais a sério a necessidade de uma independência digital maior. Na cidade costeira de Helsingborg, na Suécia, por exemplo, um projeto de um ano está testando como diversos serviços públicos funcionariam em um cenário de apagão digital.

Será que os idosos ainda receberiam suas prescrições médicas? Os serviços sociais conseguiriam continuar oferecendo cuidados e benefícios a todos os moradores da cidade?

Este projeto pioneiro busca quantificar toda a gama de desafios humanos, técnicos e legais decorrentes de um colapso dos serviços digitais e entender qual nível de risco é aceitável em cada setor. O objetivo é construir ainda este ano um modelo de preparação para a crise e que possa ser compartilhado com outros municípios e regiões.

Em outras partes da Europa, outros pioneiros estão tomando medidas para fortalecer sua soberania digital, reduzindo a dependência das grandes empresas globais de tecnologia – em parte por meio da colaboração e adoção de software de código aberto. Esta tecnologia é tratada como um bem público digital que pode ser transferido entre nuvens diferentes e operado sob condições soberanas.

No norte da Alemanha, o estado de Schleswig-Holstein fez talvez a ruptura mais clara com a dependência digital. O governo do estado substituiu a maioria de seus sistemas de computador alimentados pela Microsoft por alternativas de código aberto, cancelando quase 70% de suas licenças. A meta até o fim da década é usar os serviços das grandes empresas de tecnologia apenas em casos excepcionais.

Os governos da França, Alemanha, Holanda e Itália estão investindo, tanto a nível nacional quanto transnacional, no desenvolvimento de plataformas digitais de código aberto e ferramentas para bate-papo, vídeo e gerenciamento de documentos, semelhantes a blocos digitais de Lego que as administrações podem hospedar em seus próprios termos.

Imagem de blocos de Lego para ilustrar o post cujo título diz que a Europa quer acabar sua perigosa dependência tecnológica da internet dos EUA.
A Europa está desenvolvendo plataformas digitais de código aberto semelhantes a blocos digitais de Lego. Crédito: Steve PB/Pixabay.

Na Suécia, um sistema semelhante para bate-papo, vídeo e colaboração online, desenvolvido pela Agência Nacional de Seguros, é executado em centros de dados domésticos em vez de nuvens de empresas estrangeiras. Ele está sendo oferecido como um serviço para as autoridades públicas suecas que buscam alternativas digitais soberanas.

Suas escolhas importam

Para que a Europa – e qualquer outra nação – enfrente de forma significativa os riscos de apagão digital e colapso das nuvens, a infraestrutura digital precisa ser tratada com a mesma seriedade que a infraestrutura física, como portos, estradas e redes elétricas.

O controle, a manutenção e a preparação para crises da infraestrutura digital devem ser vistos como responsabilidades públicas principais, em vez de algo a ser terceirizado para grandes empresas globais de tecnologia, abertas à influência estrangeira.

Para incentivar um maior foco na resiliência digital entre seus estados-membros, a UE desenvolveu uma estrutura de soberania em nuvem para orientar a contratação de serviços em nuvem, cuja intenção é a de manter os dados europeus sob o controle da região. Espera-se que a Lei de Desenvolvimento em Nuvem e IA, que está por vir, traga mais foco e recursos para essa área.

Os governos e as empresas privadas devem ser incentivados a demandar segurança, abertura e interoperabilidade quando buscarem ofertas para o fornecimento de serviços em nuvem, e não olharem apenas para os custos baixos. Entretanto, da mesma forma que nós, como indivíduos, também podemos fazer a diferença com as escolhas que fazemos.

Assim como é aconselhável garantir seu próprio acesso a alimentos, água e medicamentos em tempos de crise, atente para os serviços pessoais e profissionais que você usa. Considere onde seus e-mails, fotos pessoais e conversas são armazenados. Quem pode acessar e usar seus dados, e sob quais condições? Quão facilmente você pode fazer o back up, recuperar e transferir tudo para outro serviço?

Nenhum país, muito menos um continente, será completamente independente digitalmente, e nem deveria ser. Mas, ao unir esforços, a Europa pode garantir que seus sistemas digitais permaneçam acessíveis mesmo em uma crise, tal como se espera de sua infraestrutura física.

Artigo original (em inglês) publicado por Johan Linåker na The Conversation UK.

Sobre o autor
Johan Linåker é Pesquisador Sênior no Instituto de Pesquisa da Suécia (RISE) e Professor Adjunto em Ciência da Computação na Universidade de Lund. Ele é engenheiro e especialista em engenharia de software empírica e tecnologias abertas.

Declaração de Transparência

Johan Linåker não trabalha, não presta consultoria, não possui ações e nem recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que possa se beneficiar com a publicação deste artigo e também não revelou qualquer vínculo relevante além do cargo acadêmico que ocupa.

Parceria

A Universidade Lund fornece fundos como membro da The Conversation UK.

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