Tempos modernos: Por que a mão de obra global está desengajada, esgotada e doente

Imagem de Charles Chaplin apertando peças junto a três operários no filme Tempos Modernos ilustra o post que aborda por que a mão de obra global está desengajada, esgotada e doente.
A cena clássica de Chaplin no filme Tempos Modernos representa o operário engolido pelo sistema industrial da época – metáfora que serve para a nova revolução do trabalho, na qual o que vale hoje em dia é velocidade, sofisticação tecnológica e diferenciação ocupacional. Imagem do original recriada por IA (Copilot).
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  • Engajamento global de colaboradores nas empresas caiu para apenas 21%, resultando numa perda de US$ 438 bilhões em produtividade.
  • Gestores são o elo mais vulnerável, cujo esgotamento mental afeta diretamente o desempenho das equipes.
  • O sistema globalizado atual impõe ao trabalhador a mesma aflição e desconforto do passado: o medo constante do desemprego.

A transição que o mundo atual atravessa é marcada por uma revolução tecnológica sem precedentes na história da humanidade. Guardadas as devidas proporções, esse processo lembra a transição da máquina a vapor para os motores a óleo diesel: novas ocupações, maior sofisticação tecnológica e um ritmo de trabalho acelerado. Para entender por que hoje a mão de obra global está desengajada, esgotada e doente, como aponta um relatório recente da Gallup, traço um paralelo entre a relação homem/trabalho no final do século XIX e na segunda década do século XXI.

Assim como agora, os trabalhadores daquela época não estavam preparados para enfrentar a mudança. Primeiro, porque eles não apresentavam o mesmo grau de competência técnica; segundo, porque faltava interesse em desenvolver as novas habilidades exigidas. Só que a transição naquela época não foi abrupta, mas parte de um processo gradual, com ambas as tecnologias coexistindo por um tempo, até que a nova tecnologia se consolidou como padrão na indústria e nos transportes.

Mesmo assim, o processo de adaptação ou readaptação exigiu aprendizado acelerado. O resultado foi um nível elevado de ansiedade entre os trabalhadores, acompanhado de transformações sociais profundas, já que o trabalho passava a ser institucionalizado de forma diferente. Chaplin captou esse drama no filme Tempos Modernos, ao mostrar o operário engolido pelas engrenagens da fábrica — metáfora da alienação que acompanha cada revolução tecnológica.

Hoje, a globalização e a organização do trabalho em escala mundial provocam no trabalhador contemporâneo o mesmo tipo de aflição e desconforto do passado: o medo constante do desemprego. O personagem “vagabundo” de Chaplin, sempre à beira da exclusão social, continua sendo um retrato fiel dessa insegurança.

O agravante agora é mais preocupante porque a transição parece não ter fim, visto que a tecnologia se renova numa velocidade nunca vista antes, impondo à força de trabalho a necessidade de se adaptar continuamente a novas regras, complexidades e demandas da vida moderna. O resultado é uma pressão permanente por níveis educacionais cada vez mais altos e por um grau de resiliência que poucos conseguem sustentar. É nesse cenário que o relatório da Gallup de 2025 revela como os executivos estão contribuindo para um ambiente de trabalho improdutivo e uma equipe desengajada, esgotada e doente.

O diagnóstico da Gallup

O relatório State of the Global Workplace 2025, da Gallup, confirma que o mundo do trabalho atravessa hoje uma crise de engajamento. Em 2024, apenas 21% dos trabalhadores estavam engajados, uma queda de dois pontos em relação ao ano anterior. Esse nível de declínio é o mesmo registrado durante os confinamentos da COVID-19. Em outras palavras, o impacto é gigantesco, visto que a falta de engajamento fez as empresas perderem US$ 438 bilhões em produtividade no último ano.

O estudo mostra ainda que os gestores são o elo mais frágil dessa cadeia e que o engajamento deles caiu de 30% para 27%; ou seja, uma queda de desempenho que reflete diretamente nas equipes, já que 70% do engajamento de uma equipe depende de seu gestor. Além disso, a avaliação de prosperidade dos trabalhadores também despencou, pois somente 33% disseram estar “prosperando”, enquanto que 58% se declararam “lutando” e 9% “sofrendo”.

De acordo com os dados do relatório, gestores — especialmente mulheres e profissionais acima de 35 anos — foram os mais afetados, tendo uma queda significativa no critério “bem-estar” e aumento no critério “estresse”. Não por acaso, o documento alerta que o burnout (ou esgotamento mental) gerencial pode resultar numa espiral de baixo desempenho, absenteísmo e alta rotatividade.

Chaplin preso entre as engrenagens de uma máquina em Tempos Modernos: símbolo visual da pressão sobre o trabalhador que hoje se traduz em burnout e desengajamento. Crédito: Taste of Cinema/ Wikimedia Commons /Domínio Público.

Esse cenário lembra a metáfora de Chaplin em Tempos Modernos, no qual trabalhadores são engolidos pelas engrenagens das máquinas, sem tempo para respirar e sem espaço para propósito. A diferença é que hoje as engrenagens não são apenas de ferro e aço, mas movidas a algoritmos, metas inalcançáveis e pressões globais, incluindo o uso de inteligência artificial (IA) de qualquer forma e de qualquer jeito, em nome do ganho de produtividade, mas em detrimento da qualidade do trabalho e da saúde mental e bem-estar do colaborador.

Naquela época, Chaplin usava o humor para apontar a desumanização do trabalho. A Gallup, em seu relatório, usa dados atuais para mostrar que essa desumanização continua, mas agora com impactos mensuráveis na saúde mental e física dos trabalhadores. Em ambos os casos, a mensagem que fica é clara: quando o trabalho perde o sentido humano, o resultado é o sofrimento.

E mais, o relatório da Gallup serve de alerta para líderes e executivos que pensam que o lucro a qualquer custo é algo imprescindível: sem engajamento e bem-estar, não há produtividade sustentável. Chaplin já nos mostrava isso em 1936, com sua crítica silenciosa.

“Na era das máquinas, o homem não deve se tornar uma”. Essa frase, inspirada em sua obra, continua sendo um chamado à ação de que precisamos de ambientes de trabalho que valorizem a dignidade, a saúde mental e o propósito humano, sob pena de repetirmos eternamente a comédia trágica dos Tempos Modernos.

Fonte: Gallup

Sobre o autor | Fernando Oliveira


Fernando é o fundador e editor da Sustenare News. Ele fez universidade na Califórnia, onde morou por dez anos, durante os quais trabalhou para empresas de tecnologia e do ramo editorial. Fernando é Doutor em Energia pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduado em Educação, e graduado em Administração de Empresas e em Ciência da Computação.

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