Por que seu corpo está destruído, mas a mente não quer dormir?

Imagem de uma mulher deitada na cama e aparentemente exausta ilustra o post cujo título pergunta: Por que seu corpo está destruído, mas a mente não quer dormir?
Cérebro primitivo explica por que ele não consegue relaxar e pegar no sono mesmo quando o corpo está exausto. Crédito: Kinga Howard /Unsplash.
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O relógio marca 2h13 da manhã. Você está exausta. Seus olhos ardem, seu corpo parece pesado e o despertador já começa a assombrar a noite, mas seu cérebro insiste em não relaxar. Em vez disso, os pensamentos chegam em ondas. Você enviou aquele e-mail? E se você esqueceu algo importante? Talvez agora seja também o momento perfeito para sua mente reeditar uma conversa de 2017 com precisão forense.

Muitas pessoas reconhecem esse estado frustrante de estar “alerta, mas exausto” – a sensação paradoxal de estar fisicamente cansada, mas mentalmente incapaz de desligar. Certamente o cansaço deveria produzir o sono automaticamente, mas o cérebro simplesmente não adormece porque o corpo está fatigado. Na verdade, sob estresse, a exaustão e a insônia frequentemente ocorrem juntos. Parte da razão disso está na biologia da sobrevivência.

A resposta humana ao estresse evoluiu para lidar com ameaças físicas imediatas. Para a maior parte da história humana, o perigo tendia a ser extremo e de curta duração – um predador próximo, um risco ambiental ou um conflito com outro grupo humano. Naqueles momentos, a prioridade do cérebro não era o descanso, mas a sobrevivência.

Quando o cérebro detecta qualquer ameaça, uma região chamada amígdala inicia a resposta clássica de lutar-ou-fugir do corpo. Os hormônios do estresse, incluindo a adrenalina e o cortisol, são liberados. A frequência cardíaca aumenta, a respiração acelera e a atenção se aperfeiçoa. A energia é desviada das tarefas de manutenção de longo prazo para a ação imediata.

Essa resposta é extraordinariamente útil se você está tentando escapar de um tigre. E é muito menos útil quando a “ameaça” está em sua caixa de e-mail lotada de mensagens ou uma pressão financeira crescente.

Estressores da atualidade

Os estressores modernos são psicologicamente poderosos, mas biologicamente peculiares. Ao contrário de predadores, eles raramente se resolvem rapidamente. E-mails continuam chegando. O trabalho nos segue até nossa casa por meio de smartphones e computadores. As redes sociais criam um fluxo constante de comparação social e vigilância de baixo nível. Mesmo o tempo de lazer tornou-se estranhamente poroso, interrompido por notificações, mensagens e, frequentemente, pela expectativa de disponibilidade permanente.

O resultado disso tudo é que as partes do cérebro responsáveis por nos manter alertas podem permanecer parcialmente ativadas por longos períodos. Isso importa porque o sono não é simplesmente a ausência de vigília. Dormir exige que o cérebro reduza ativamente esse alerta. Uma rede de centros de ativação no tronco cerebral, hipotálamo e cérebro anterior normalmente nos mantém acordados e atentos durante o dia. Para pegar no sono, esses sistemas precisam se acalmar.

No entanto, sob o estresse de longo prazo, o cérebro pode ficar preso em um estado de hiperativação. Mesmo quando o corpo está exausto, o cérebro continua trabalhando, antecipando e ensaiando. De uma perspectiva evolutiva, isso faz certo sentido. Se o ambiente parece ameaçador ou incerto, estar totalmente “desligado” pode não parecer seguro.

Uma razão por que esse estado parece tão desagradável é que o cansaço físico e a ativação mental são controlados por sistemas que se sobrepõem, mas parcialmente separados. Seus músculos podem precisar desesperadamente de descanso, enquanto seu cérebro continua produzindo um alerta motivado pelo estresse. Isso resulta no estranho desacordo que muitas pessoas conhecem bem: corpo cansado e pensamentos acelerados.

O cortisol também desempenha um papel importante no estado “alerta, mas exausto”. Sob circunstâncias normais, o cortisol segue um ritmo diário. Os níveis aumentam pela manhã para promover vigília e gradualmente declinam até a noite. O estresse crônico pode desregular esse padrão, deixando o corpo ativado mais tarde na noite.

Alguns estudos sugerem que pessoas com insônia mostram atividade metabólica e neurológica elevada mesmo tentando dormir, quase como se o cérebro estivesse com uma “ociosidade” demasiadamente alta. A vida moderna pode amplificar esse problema de uma forma que nossos sistemas nervosos não evoluíram para lidar com isso.

A luz artificial suprime o hormônio melatonina, o qual ajuda a regular o momento do sono. Os smartphones fornecem estímulo cognitivo sem fim, no momento em que o cérebro deveria estar desacelerando. O “doomscrolling” [tempo excessivo de rolagem da tela do celular] combina ativação emocional, incerteza e novidade – três coisas que os sistemas humanos de atenção acham quase impossível ignorar.

Então há a ruminação: a reedição mental repetitiva de preocupações e problemas. Os humanos possuem uma capacidade notável de simular mentalmente o futuro e revisitar o passado. Essa capacidade nos ajuda a planejar, aprender e evitar perigo. Mas também significa que o cérebro pode continuar gerando respostas de estresse muito depois de qualquer ameaça imediata ter desaparecido.

A ironia cruel da exaustão e regulação emocional

A ironia cruel é que quanto mais exaustos nos tornamos, frequentemente mais difícil fica a regulação emocional. A privação de sono aumenta a reatividade da amígdala, enquanto reduz a influência moderadora do córtex pré-frontal, que é a parte do cérebro envolvida no controle racional e perspectiva.

Um cérebro cansado torna-se mais emocionalmente reativo, o que pode fazer as preocupações parecerem ainda mais gritantes à noite. Em outras palavras, estar excessivamente cansado pode tornar o cérebro menos capaz de acalmar-se.

Essa ajuda explica por que o “apenas relaxe” é geralmente um conselho terrível para a insônia. A hiperativação não é simplesmente uma falha da força de vontade. É um estado profundamente biológico moldado por sistemas de estresse, hormônios, redes de atenção e padrões aprendidos de vigilância. Isso não significa que a situação seja desesperadora.

Pesquisadores do sono frequentemente enfatizam que o descanso e a segurança estão estreitamente ligados no cérebro. As rotinas consistentes, a redução de estímulo noturno, o exercício, a exposição à luz do dia e a limitação do uso de telas tarde da noite podem todos ajudar a reforçar os sinais de que a noite é o momento para a recuperação, não para o alerta. A terapia cognitivo-comportamental para a insônia também provou ser notavelmente eficaz, em parte porque ataca o próprio ciclo de ansiedade e insônia.

Talvez o propósito mais importante aqui seja mais amplo. Sentir-se “alerta, mas exausto” não é evidência que seu corpo falhou em descansar adequadamente. Muitas vezes é uma evidência de que o cérebro tornou-se tão bom em permanecer alerta no mundo digital que ele realmente nunca pausa.

Artigo original (em inglês) publicado por Michelle Spear na The Conversation UK.

SOBRE A AUTORA
Michelle Spear

Professora de Anatomia na Universidade de Bristol e Avaliadora do Comitê Intercolegial de Exames Cirúrgicos Básicos (ICBSE), apoiando os exames de Admissão ao Colégio Real de Cirurgiões do Reino Unido e da Irlanda. Possui um Ph.D. em Anatomia pela Universidade de Cambridge.

Declaração de Transparência

Michelle Spear não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Parceria

A Universidade de Bristol fornece fundos como membro da The Conversation UK.


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