A ABC vai usar a IA no jornalismo. Quais os riscos e os benefícios?
A ABC* sinalizou uma mudança em sua posição sobre o uso de inteligência artificial generativa (IA) na produção de suas notícias. Apesar da cautela prévia, um acordo recente com a Anthropic, empresa americana de tecnologia, abriu a porta para que a equipe da ABC use a IA Claude no trabalho de transmissão jornalística. [*A ABC Austrália é uma organização de mídia e transmissão baseada em Sydney, existe há 90 anos e é de propriedade pública.]
Por enquanto, o escopo dessa inclusão é limitado, com o foco na conversão de programas de rádio em artigos. No entanto, a ABC sinalizou disposição de expandir esse escopo para incluir outras tarefas. A emissora também contratará especialistas para ajudar na adoção de IA.
O objetivo é liberar tempo para que a equipe se dedique a outros trabalhos jornalísticos centrais, como as investigações, ao mesmo tempo em que expande as capacidades de produção da emissora.
Os australianos têm uma desconfiança distinta em relação a ferramentas de IA, então resta saber como o público reagirá a essa mudança, embora a decisão esteja alinhada a uma longa história de editores e jornalistas sendo usuários precoces de inovações tecnológicas.
Jornalistas já usam várias ferramentas de dados, sendo possível usar a IA generativa para aumentar o trabalho jornalístico de formas valiosas e sem precedentes.
No entanto, isso ocorre em um momento em que o jornalismo enfrenta crises de sustentabilidade para jornalistas e para as notícias – problemas que a IA pode tão facilmente agravar quanto remediar.
Os pioneiros da tecnologia?
Os jornalistas e os produtores de notícias há muito tempo não apenas têm um interesse direto em inovações que possam melhorar seus fluxos carregados de trabalho, mas também uma ampla curiosidade sobre o que há de novidades em ferramentas e tecnologias.
A IA generativa em forma de chatbot só ganhou destaque nos últimos três anos. Porém, há mais de uma década os jornalistas economizam tempo usando sistemas automatizados e “robo-writing” para converter dados em notícias simples. Em um estudo de 2016, os leitores até classificaram os artigos escritos por máquinas como “mais críveis e com maior grau de expertise jornalística”.
De qualquer forma, com a adoção desenfreada da tecnologia, também surgem preocupações de que algumas inovações são mais destrutivas do que benéficas.
Por exemplo, as mídias sociais e as análises de dados introduziram o todo-poderoso algoritmo como um editor adicional indesejado ao trabalho do jornalista, minando sua autonomia. Assim sendo, a IA generativa apresenta novas ameaças que levantam preocupações existenciais para a sustentabilidade das notícias.
Perturbar e deslocar o jornalismo
Os jornalistas estão atualmente mais preocupados com a IA generativa do que estavam no passado com outras ferramentas automatizadas, visto que os chatbots aparentemente podem escrever exatamente como um humano. Consequentemente, os jornalistas têm enfatizado seu papel indispensável como guardiões que transmitem as notícias ao público.
Portanto, se as organizações optarem pela IA para ajudar a produzir o jornalismo, uma questão-chave seria como lidar com a ética e as preocupações sobre a questão da qualidade. Os profissionais com pouco tempo nas áreas de direito e medicina ficaram em apuros quando a IA generativa saiu do script e criou ficções plausíveis.
Por um lado, isso faz com que a ameaça para os jornalistas seja potencialmente maior, pois a profissão já enfrenta uma crise de desconfiança pública, incluindo na Austrália. Confiar na IA para a geração de conteúdo abre portas para erros que produtoras de notícias como a ABC dificilmente podem se dar ao luxo de cometer.
Por outro lado, esses riscos podem ser mitigados se as redações dedicarem esforços adicionais para verificar e curar o conteúdo da IA, fazendo com que o papel dos jornalistas como guardiões seja mais importante do que nunca. Todavia, tal percepção também depende do público ter uma relação com os jornalistas e apreciar seu julgamento e análise em primeiro lugar.
Esses esforços representam um tipo novo de trabalho que desloca o foco das formas de produção que há muito tempo foram centrais para o jornalismo.
Um espaço de oportunidades
As ferramentas mais recentes de IA oferecem aos jornalistas novas maneiras de ampliar seu trabalho. Os grandes modelos de linguagem e outras ferramentas de IA que o público usa para gerar e-mails de trabalho ou imagens engraçadas de gatos têm sido usados por jornalistas globalmente para realizar investigações e produção de notícias sem precedentes.
A cobertura aprofundada da rede britânica BBC sobre a presença da Rússia na Ucrânia aproveitou a IA para vasculhar volumes enormes de texto e vídeo – o que resultou em discernimentos que teriam sido impraticáveis ou impossíveis de alcançar por métodos manuais.
Os produtores de notícias do Sul Global usaram a IA para superar os desafios endêmicos de recursos. Eles conseguiram reaproveitar e traduzir conteúdo, ampliando as capacidades de repórteres já sobrecarregados.
A IA generativa pode economizar tempo. Usar ferramentas de IA para a produção rotineira de notícias pode abrir espaço para que os jornalistas melhorem seus relacionamentos com o público, foquem na qualidade e fortaleçam a argumentação sobre o valor distintivo do jornalismo.
Deslocar jornalistas ou deslocar o jornalismo?
As mudanças na ABC chegam em um momento em que o financiamento e os recursos para o jornalismo estão cada vez mais escassos. Os modelos de negócio que durante muito tempo sustentaram nosso sistema de mídia tornaram-se insustentáveis por conta das big techs, enquanto que as organizações australianas de notícias têm que competir com a mídia online abundante vinda de todo o mundo.
As ferramentas de IA trazem potencial para mais deslocamento, visto que os resumos de IA servidos por motores de busca sintetizam o conteúdo de notícias em vez de direcionar o tráfego online para a fonte original da notícia.
Além disso, as notícias geradas pela IA ofuscam os veículos australianos de mídia ou redirecionam os usuários para as organizações de notícias internacionais maiores – particularmente as dos EUA. As redações estão avaliando suas opções sobre o melhor uso da IA enquanto traçam estratégias de como competir com ela como uma fonte de notícias.
Os objetivos da ABC para usar a IA em seu trabalho jornalístico se encaixam em uma tendência histórica consolidada de manter o jornalismo na vanguarda sobre o que as inovações tecnológicas podem oferecer.
Os ganhos de eficiência e as capacidades ampliadas para o jornalismo são reais, e o público pode apreciar seus resultados mesmo enquanto desconfia da própria tecnologia.
Entretanto, a questão que permanece é se a ABC conseguirá canalizar a IA para o benefício do público de uma maneira que não sacrifique seu compromisso com a qualidade das notícias, nem arranhe a imagem que o público tem do serviço público de radiodifusão.
Artigo original (em inglês) publicado por Timothy Koskie na The Conversation AU.

SOBRE O AUTOR
Timothy Koskie
Associado de pós-doutorado para o projeto Mediated Trust na Escola de Mídia e Comunicações da Universidade de Sydney. Antes disso, trabalhou em vários projetos, como o da Wikipedia, e ministrou seminários e tutoriais de graduação e pós-graduação em diversas áreas, incluindo mídia, governança da internet e culturas digitais.
Declaração de Transparência
Timothy Koskie não presta consultoria, não possui ações, não recebe financiamento e nem trabalha para qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo, e não declarou afiliações relevantes além de seu cargo acadêmico.
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