Pausas para hidratação expõem quem realmente manda na Copa
Vinte e dois minutos após o início da partida da fase de grupos do Canadá contra o Catar, em 18 de junho, a torcida da casa começou a vaiar. Os torcedores não estavam questionando uma decisão do árbitro, nem uma jogada do adversário, mas a pausa obrigatória de três minutos para os jogadores beberem água. O Canadá já vencia por 6 a 0; portanto, a irritação mirava diretamente a interrupção.
Na Copa do Mundo de 2026, a Fifa implementou as pausas obrigatórias para hidratação sob o pretexto de uma “medida de bem-estar dos jogadores”. O presidente da entidade, Gianni Infantino, insistiu que a decisão não é comercial, mas puramente esportiva, argumentando que não há “receita adicional para a Fifa” porque seus acordos comerciais foram assinados com antecedência.
A base científica dessas pausas é genuína. Pesquisadores alertaram que cerca de um quarto das partidas nesta Copa do Mundo poderia ser disputado em calor superior aos limites de segurança recomendados pelo sindicato dos jogadores, a Fifpro. Como tal, essas pausas, quando necessárias, são uma medida bem-vinda do ponto de vista do bem-estar dos atletas.
Crucialmente, porém, elas tornaram-se obrigatórias em todas as 104 partidas da Copa do Mundo, padronizadas, agendadas e aplicadas independentemente da temperatura ou do local. Estão sendo impostas em uma noite moderada de 20°C ou mesmo dentro de um estádio com ar-condicionado.
Essa uniformidade uniu críticos raramente do mesmo lado. Marcelo Bielsa, técnico que dirigiu o Uruguai nessa Copa do Mundo, disse que as pausas para hidratação “não acrescentam nada” ao jogo. O técnico da Inglaterra, Thomas Tuchel, afirmou que elas “mudam a identidade” de uma partida e quebram seu ímpeto. O [jornal inglês] The Guardian as chamou de “pausas publicitárias” que empurram o futebol para um ritmo americano de quatro tempos.
Os críticos têm um motivo. Uma medida visando a segurança [dos jogadores] evoluiu agora para uma característica permanente que altera como o belo jogo é jogado, ao mesmo tempo em que, convenientemente, cria espaços publicitários adicionais previsíveis em cada partida.
As pausas para hidratação foram previstas para gerar mais de US$250 milhões apenas nos EUA, e uma estimativa de US$1 bilhão mundialmente.
Infantino está tecnicamente certo ao dizer que a Fifa não lucra diretamente com as pausas, mas o valor extra que elas oferecem pode tornar os direitos de transmissão mais lucrativos da próxima vez que a Fifa comercializá-los.
Que controle a Fifa tem sobre seu próprio evento?
O desconforto vai além da perda de ritmo ou de tática. Em uma coletiva pré-torneio na Cidade do México, em 10 de junho, o jornalista da BBC Dan Roan perguntou diretamente a Infantino se ele havia “perdido o controle de seu próprio torneio”. A resposta de Infantino para os repórteres foi para que eles “ficassem calmos e relaxassem”.
A pausa para hidratação é o emblema de um padrão mais amplo: a Fifa é assertiva sobre seu produto, mas cada vez mais restrita sobre as condições ao redor dele.
Nos primeiros dias do torneio, o árbitro somali Omar Artan teve sua entrada negada nos EUA apesar de possuir um visto válido. A Fifa respondeu afirmando que não está envolvida nos processos de imigração do país anfitrião.
De forma semelhante, a seleção do Irã foi forçada a dormir no México e cruzar a fronteira [dos EUA] apenas nos dias de jogo. Enquanto isso, torcedores do Haiti, Irã, Costa do Marfim e Senegal, seleções classificadas para a Copa, foram impedidos de entrar por conta de proibições de viagem rigorosas que isentaram jogadores, mas não os torcedores.
Ao que parece, a Fifa não consegue garantir acesso universal a todos. Em grande parte, opta por não desafiar os poderes soberanos dos quais o torneio depende.
Preços surreais dos ingressos para os jogos
Essas questões de governança também foram vistas na precificação de ingressos. Pela primeira vez, a Fifa usou preços dinâmicos, orientados pela demanda, combinados com sua própria plataforma oficial de revenda. Partidas comuns de grupo levaram os preços à casa dos quatro dígitos. Alguns torcedores relataram que alguns ingressos chegaram a ser vendidos por até US$10.990 para a final, e os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey intimaram judicialmente a Fifa por reclamações de torcedores que se sentiram enganados por preços inflacionados.
O jogo global corre o risco de se tornar inacessível e inviável para muitos. A Fifa parece apertar seu controle sobre o que pode monetizar, mesmo quando o evento ameaça escapar de seu controle em outros aspectos.
O impacto ambiental do torneio torna esse limite mais evidente. A Fifa pode escolher locais, agendar partidas e adicionar protocolos de resfriamento, mas não pode encolher um continente. Pesquisadores sugerem que as emissões [de poluentes] do torneio são geradas pelas viagens, em sua maior parte, principalmente por conta dos voos, com estimativas próximas de 7,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Reutilizar estádios existentes ajuda, mas um torneio com 48 seleções, 104 partidas e 16 cidades em três países ainda depende da aviação.
Dizer que a Fifa é simplesmente gananciosa significa ignorar como a autoridade está distribuída; dizer meramente que o futebol está sendo “americanizado”, com preços premium – e orientado para as transmissões, com quatro tempos — descreve o sintoma, não o mecanismo. A autoridade da Fifa parece ter ficado seletiva. É expansiva sobre o produto do dia de jogo, ingressos e atenção global, mas ausente, ou relutante, sobre fronteiras, acessibilidade e clima.
Essas tensões provavelmente vão se intensificar [para o próximo Mundial]. A Copa do Mundo de 2030 será organizada por seis países em três continentes; a edição de 2034 foi concedida, efetivamente sem contestações, à Arábia Saudita — um Estado com capital para sediar um torneio e o poder soberano para definir todas as condições ao seu redor.
O futebol agora é sediado globalmente e cada vez mais entregue a governos capazes de financiar e fornecer garantias políticas. A questão para a próxima década não é se a Fifa governa a Copa do Mundo, mas quais partes do torneio a Fifa ainda governa — e quais agora pertencem aos Estados e aos mercados dos quais depende.
Artigo original (em inglês) publicado por Haojin Zhou & Mathew Dowling na The Conversation UK.

SOBRE O AUTOR
Haojin Zhou
Doutorando em Governança e Políticas do Esporte na Universidade Loughborough, com formação em jornalismo multimídia internacional e gestão esportiva. Pesquisador sobre a implantação de reformas de governança no setor esportivo do Reino Unido, federações nacionais, responsabilidade, legitimidade e implementação de políticas.

SOBRE O AUTOR
Thomas Allen
Especialista internacionalmente reconhecido em políticas e governança esportiva, com pesquisa focada na mudança organizacional e sistêmica dentro de organizações esportivas sem fins lucrativos. Possui um histórico estabelecido de publicações em periódicos de destaque na área e coautoria de livros em gestão esportiva, governança esportiva e métodos comparativos em esporte.
Declaração de Transparência
Os autores não trabalham, não fazem consultoria, nem possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo, e não divulgaram afiliações relevantes além de seus cargos acadêmicos.
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A Universidade Loughborough fornece financiamento como membro da The Conversation UK.
