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Um perigo invisível pode parar alguns jogos da Copa do Mundo

Imagem aérea de um estádio de futebol mostrando os jogadores no campo e torcedores nas arquibancadas e uma fumaça por cima de tudo ilustra o post cujo título diz que um perigo invisível pode parar alguns jogos da Copa do Mundo.
A FIFA diz estar preparada para "riscos relacionados ao clima", mas não parece ter um plano para a fumaça de incêndios florestais, que pode ser prejudicial para jogadores e torcedores nos estádios. Crédito: Imagem gerada por IA /Copilot /OpenAI.
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No mês passado, quase uma dúzia de incêndios florestais deflagraram no sul da Califórnia, lançando plumas de fumaça e material particulado no ar. Autoridades de saúde pública em Los Angeles emitiram um alerta de qualidade do ar por vários dias no condado, falando sobre o “potencial do impacto direto da fumaça” e orientando a todos que pudessem ver a fumaça ou sentir seu cheiro para “evitar a exposição desnecessária ao ar livre e limitar o esforço físico”.

A zona vermelha no mapa incluía o Los Angeles Stadium — também conhecido como SoFi Stadium — um dos locais [que vão receber alguns dos jogos] da Copa do Mundo, o principal evento do futebol, que começa [no dia 11/6 e acaba no dia 19/7]. Entre os dias 12 de junho e 10 de julho, a cidade de Los Angeles vai sediar oito partidas e deve atrair dezenas de milhares de torcedores e muitos jogadores.

À medida que as condições secas e quentes persistirem, mais incêndios serão possíveis e a fumaça poderá novamente pairar sobre o estádio. O mesmo risco existe para várias das outras 15 cidades-sede da Copa do Mundo. Mas, apesar dos impactos à saúde pela exposição à fumaça, já documentados, o órgão internacional que governa o futebol (FIFA), não parece ter um plano no caso da qualidade do ar se deteriorar.

“A FIFA basicamente quase não fez nada”, disse Nicholas Watanabe, professor de gestão esportiva e do entretenimento na Universidade da Carolina do Sul. “Eles estão por trás até de ligas menores na América do Norte”.

A Liga Nacional de Futebol Feminino (NWSL), a Liga Canadense de Futebol e a NCAA, que supervisiona os esportes universitários, todas têm pelo menos algumas diretrizes que descrevem o que fazer se o Índice de Qualidade do Ar (IQA) atingir certos patamares. Outras ligas — como a de Baseball e a Associação Nacional de Basquete Feminino — adiaram partidas por causa da fumaça causada por incêndios, notadamente quando plumas se espalharam pelo Canadá e pela América do Norte em junho de 2023.

O IQA é uma medida dos poluentes comuns no ar que varia de 0 a 300+, com níveis “não saudáveis” começando em 101 e alertas de “extremamente não saudáveis” e “perigosos” após isso. Os especialistas dizem que a fumaça oriunda de incêndios frequentemente provoca picos que podem ser prejudiciais tanto a jogadores quanto a torcedores. “Eles podem ficar com a garganta ardente, tosse e dor de cabeça”, disse Mary Johnson, que pesquisa a saúde ambiental na Universidade de Harvard. Alguns grupos podem ser particularmente sensíveis ao problema, incluindo crianças, pessoas idosas e indivíduos com condições respiratórias, como a asma.

“Os riscos relacionados ao clima são avaliados como parte do planejamento geral do torneio e gerenciados em estreita coordenação com as cidades-sede, as autoridades dos estádios e as agências nacionais”, diz a FIFA em um comunicado. Ela detalhou protocolos extensos relacionados ao calor extremo, incluindo intervalos obrigatórios para hidratação dos jogadores (os torcedores, por sua vez, não poderão levar garrafas de água reutilizáveis aos estádios), mas não mencionou a qualidade do ar. Mencionou um “exercício de preparação em todo o torneio” para quando o tempo for severo, sem fornecer detalhes adicionais. A FIFA não respondeu a perguntas de acompanhamento e recusou vários pedidos de entrevista.

Por ora, a FIFA parece apostar que o ar permanecerá limpo. Embora essa aposta possa dar certo, a fumaça de incêndios tornou-se um traço cada vez mais comum dos verões norte-americanos, levantando questões sobre se os organizadores estão preparados para as condições que já não são incomuns. “É meio ridículo que o maior evento esportivo do mundo não tenha nada”, disse Watanabe, referindo-se até mesmo a um limiar mínimo de IQA para cancelar partidas. “Estamos a um triz de um incêndio ruim no Noroeste do Pacífico que possa resultar em preocupações muito grandes”.

Todos os indicadores apontam para uma temporada perigosa de incêndios em 2026. O Centro Nacional de Incêndios Interagências projeta que, após um inverno quente e com possibilidades de um El Niño recorde a caminho, vastas áreas do Oeste americano estarão em risco elevado de incêndios florestais neste verão. As autoridades canadenses fizeram previsões semelhantes. Como a fumaça pode viajar milhares de quilômetros, isso coloca virtualmente todos os locais [de jogos] da FIFA em risco potencial.

“Existem muito poucos lugares na América do Norte que sejam imunes a esses efeitos”, disse Dominik Kulakowski, geógrafo que estuda incêndios florestais na Universidade Clark. Ele observou que o tempo de aviso para eventos envolvendo fumaça às vezes pode ser tão curto quanto algumas horas. “Faria sentido a FIFA pensar com antecedência e implantar alguns padrões de qualidade do ar que acionassem decisões sobre jogar ou interromper um jogo”.

John Quindry, professor de fisiologia da Universidade de Montana, disse que, embora a falta de um plano provavelmente não signifique “colocar pessoas precocemente em covas”, ele acredita que os organizadores deveriam estar preparados. Há coisas que a FIFA poderia fazer para ajudar a mitigar o risco da fumaça de incêndios, disse ele, desde realizar partidas em horários do dia em que a qualidade do ar tende a ser melhor, a adiar ou realocar algumas partidas. “Deveria haver uma árvore de decisão e um algoritmo incorporados ao processo”, disse ele, comparando eventos de qualidade do ar a tempestades com trovoadas. “As pessoas certamente suspendem jogos quando há relâmpagos e ninguém discute isso”.

Quando o IQA atinge 101, o ar é considerado “não saudável para grupos sensíveis” e a NWSL começa a incluir intervalos de hidratação para os jogadores. Em 180, que cai na faixa “não saudável” para todas as pessoas, a liga começa a considerar o reagendamento de partidas. Já o cancelamento ou adiamento é obrigatório quando o IQA fica acima de 200, ou seja, quando é “extremamente não saudável”.

A liga de futebol não respondeu a um pedido para confirmar se essa política, que o jornal The New York Times relatou em 2023, permanece em vigor. Mas ela se alinha com as diretrizes da USA Soccer.

O manual de operações de partidas da NFL de 2022–2023 também diz que a liga “estará preparada para realocar um jogo se houver evidência definitiva de que o IQA permanecerá consistentemente acima de 200 por um período significativo de tempo, incluindo o dia em que o jogo for disputado no estádio afetado”. Se o IQA ultrapassar 300, a NCAA exigirá que os organizadores transfiram os eventos para ambientes internos ou os cancelem.

Watanabe disse que alguns dos estádios da Copa do Mundo são fechados, com sistemas modernos de filtragem que poderiam ajudar a mitigar a má qualidade do ar. Isso inclui o Estádio Mercedes Benz, em Atlanta, uma cidade que já experimentou este ano a má qualidade do ar por conta da fumaça provocada por incêndios. Mas muitos outros [estádios] não podem ser fechados, incluindo os de Los Angeles, Seattle e Vancouver — todos historicamente propensos à fumaça de incêndios. Já houve contato com os comitês organizadores locais e as autoridades de saúde pública nas cidades-sede, além da Associação de Jogadores da Seleção Nacional de Futebol dos EUA, e da Força-Tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo. Poucas respostas foram dadas; a maioria redirecionou as perguntas para a FIFA.

“Não existem níveis específicos de IQA que acionariam automaticamente a suspensão de eventos da FIFA”, disse James Garrow, porta-voz do departamento de saúde pública da Filadélfia, que é um dos locais da Copa do Mundo em 2026. Em vez disso, ele disse que a cidade monitoraria a qualidade do ar e “consideraria possíveis recomendações”.

Para a FIFA, entretanto, a questão não é simplesmente se a fumaça de incêndios pode afetar a saúde, mas como equilibrar esses riscos com as demandas logísticas e financeiras de um torneio global de várias semanas. Como disse Quindry: “Há muito dinheiro em jogo”.

Seja qual for o resultado na Copa do Mundo deste ano, Kulakowski afirmou que é apenas uma questão de tempo antes que a FIFA e outras ligas esportivas tenham que lidar com um futuro mais cheio de fumaça. “Ter que pensar sobre a fumaça de incêndios florestais e como isso afeta os atletas, a capacidade atlética e os eventos esportivos é algo novo”, disse ele, mas está se tornando um problema cada vez mais comum na América do Norte, Europa e em outros lugares. “Estamos vendo os incêndios florestais se tornarem uma parte maior de nossas vidas”.

Artigo original (em inglês) publicado por Tik Root na Grist. Assine a newsletter semanal da Grist aqui.

SOBRE O AUTOR
Tik Root

Escreve sobre soluções climáticas e economia no portal Grist. Começou a carreira como jornalista freelancer no Iêmen e, desde então, cobriu de tudo, desde a Al Qaeda até as Olimpíadas, para veículos como National Geographic, The New York Times e The Atlantic, entre outros. Trabalhou anteriormente no The Washington Post e no Scripps News. Mora em Vermont com sua esposa e filho.


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