A JBS abandona suas metas climáticas e de desmatamento

Imagem de gados no pasto ilustra o post cujo título diz que a JBS abandona suas metas climáticas e de desmatamento.
Depois de enfrentar o “imenso” desafio de realmente cumprir sua meta de emissões net zero até 2040, a JBS disse que, em vez disso, vai reduzir a sua “intensidade de emissões”. Crédito: Wirestock /Magnific.
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A maior empresa de carne do mundo está recuando de seus compromissos climáticos e de combate ao desmatamento, depois de afirmar por vários anos que a redução de suas emissões de gases de efeito estufa [GEEs] era uma meta central.

Em seu recente relatório anual de sustentabilidade, divulgado na semana passada, a JBS abandonou seu ambicioso compromisso de alcançar emissões líquidas zero [net zero] até 2040 e omitiu qualquer menção à sua meta anterior de eliminar o desmatamento em todas as suas cadeias de fornecimento no Brasil. A mudança ocorre quando outras grandes empresas de pecuária e tradings de grãos na cadeia de suprimento parecem estar reduzindo suas ambições climáticas, incluindo desistir da adesão a uma moratória bem-sucedida sobre o desmatamento na Amazônia brasileira.

“Eles removeram qualquer referência às suas metas de emissões net zero para 2040 e também removeram qualquer referência ao compromisso que mantinham com o prazo definido para o desmatamento”, disse Gemma Hoskins, diretora da Mighty Earth, organização ambiental sediada no Reino Unido que há muito acompanha a atividade da JBS. “É muito decepcionante”.

Em um post que acompanhou o relatório da semana passada, Jason Weller, diretor de sustentabilidade da JBS, disse que contabilizar as emissões de sua cadeia de fornecimento — de onde vêm quase 97% de suas emissões — é de uma complexidade singular.

“Quanto mais avançamos na execução, mais claro ficou que uma meta net zero abrangendo centenas de milhares de produtores agrícolas independentes em dezenas de milhões de hectares, em dezenas de países — cada um com práticas diferentes, bases diferentes e nenhuma infraestrutura padronizada de medição — é um desafio imenso”, disse Weller, acrescentando que a empresa ainda planeja fortalecer sua estrutura “para que nossas metas reflitam melhor onde podemos agir diretamente”.

No relatório, a JBS diz que planeja se concentrar no enfrentamento das emissões de suas operações diretas, que respondem por cerca de 2% a 3% de suas emissões, em vez de sua cadeia de fornecimento.

Um porta-voz da JBS não respondeu a perguntas específicas, mas escreveu em um e-mail que a “estrutura atualizada de sustentabilidade da empresa reflete uma evolução disciplinada, fortalecendo os fundamentos operacionais, promovendo progresso mensurável e construindo resiliência de longo prazo na cadeia de suprimentos. Ela se alinha mais de perto às expectativas dos clientes e ao desempenho dos negócios, ao mesmo tempo em que reforça nosso compromisso com a eficiência, transparência e produção responsável de alimentos”.

A JBS, historicamente baseada no Brasil, mas recentemente domiciliada na Holanda, tem uma pegada de GEEs comparável à da Espanha, embora sua expansão global planejada possa aumentar significativamente seu impacto. A empresa tem grandes operações nos Estados Unidos e em grande parte da América Latina e da Europa, mas também abriu recentemente instalações de produção no Oriente Médio e na Ásia, e anunciou planos para abrir uma operação massiva na Nigéria, sua primeira na África.

Em 2019, executivos da JBS afirmaram que a produção global de carne bovina, suína e de frango da empresa tinha pouco ou nenhum impacto climático, mas a companhia mudou de posição em 2020, quando assumiu o compromisso, agora abandonado, de emissões net zero até 2040. Essa promessa e outras, incluindo as que visavam deter ou desacelerar o desmatamento em anos específicos, tornaram-se para a empresa uma parte central da campanha de vários anos para listar suas ações na Bolsa de Valores de Nova York, meta que alcançou em 2025.

A Securities and Exchange Commission aprovou a listagem dias depois de documentos da campanha mostrarem que a Pilgrim’s Pride, uma grande subsidiária da JBS, foi a maior contribuinte corporativa para o comitê de posse [do presidente americano] Donald Trump, doando US$ 5 milhões.

Os irmãos bilionários brasileiros Joesley e Wesley Batista, acionistas majoritários da JBS, passaram desde então a desempenhar um papel nos esforços de diplomacia externa da administração, inclusive no Brasil, segundo a Reuters.

Grupos ambientais e anticorrupção fizeram campanha contra a listagem, observando os vínculos da empresa com o desmatamento, a destruição ambiental e a corrupção, incluindo acusações de suborno que levaram os irmãos Batista à prisão. Eles afirmam que a empresa está recuando em suas metas climáticas, depois de ter valorizado estrategicamente sua imagem.

“Essas alegações de emissões net zero eram, na verdade, sobre legitimar um negócio ilegítimo”, disse Hoskins. “Eles usaram a bandeira do net zero para se posicionar como tendo algum tipo de liderança climática. Isso ajudou a legitimar o que tem sido um negócio muito corrupto”.

Hoskins observou que a JBS conseguiu atrelar à sustentabilidade as alegações de net zero para emitir títulos vinculados a taxas de juros muito baixas. “Isso lhes permitiu ter uma quantidade enorme de capital para cumprir uma estratégia agressiva de crescimento e se colocar em evidência por meio do IPO na Bolsa de Valores de Nova York”, disse Hoskins. “Acho que os problemas são muito maiores do que simplesmente terem abandonado uma meta climática e têm muito mais a ver com exatamente como usaram isso para captar enormes quantias de financiamento”.

Em escala global, a produção de carne responde por pelo menos 16,5% do total das emissões de GEEs, vindo tanto das emissões diretas do gado quanto dos impactos do desmatamento e do uso da terra relacionados ao cultivo de grãos para alimentar vacas, frangos e porcos no mundo inteiro.

Em termos de contabilidade de GEEs, essas emissões da cadeia de fornecimento são classificadas como emissões de Escopo 3. As emissões de Escopo 1 vêm diretamente das operações de uma empresa, e as de Escopo 2, do uso de energia.

Em seu relatório, a JBS disse que pretende limitar a “intensidade das emissões” de suas emissões de Escopo 1 e 2, que representam uma fração de sua pegada total de carbono. A intensidade das emissões é calculada como as emissões liberadas por unidade de um determinado produto — uma libra de carne bovina ou um megawatt de energia — e não captura as emissões totais.

“Não se enganem: essas sempre foram promessas vazias da JBS que nunca iria cumprir de forma realista”, disse Daniela Montalto, ativista da Greenpeace do Reino Unido, em comunicado. “Mas agora a JBS parece ter dado carta branca a sua cadeia de fornecimento — seja de gado ou de ração animal — para o sacrifício em massa de ecossistemas, da Amazônia às novas fronteiras na África Subsaariana, particularmente em regiões onde as regulamentações nacionais ou a fiscalização são fracas”.

Artigo original (em inglês) publicado por Georgina Gustin na Inside Climate News (ICN), uma organização independente e sem fins lucrativos que cobre notícias sobre clima, energia e meio ambiente. Este artigo foi traduzido e republicado aqui com a permissão formal da ICN. Assine a newsletter da ICN aqui.

SOBRE A AUTORA
Georgina Gustin

Jornalista que trabalha para a Inside Climate News na cobertura de notícias sobre agricultura. Seu trabalho já recebeu inúmeros prêmios e suas matérias já foram publicadas no The New York Times, Washington Post e The Plate da National Geographic, entre outros. Possui diploma de jornalismo pela Universidade de Colúmbia e pela Universidade do Colorado, em Boulder.


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