JBS e outras gigantes do ramo fazem promessas net zero vazias
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Cinco anos atrás, a maior empresa de carne do mundo publicou um anúncio de página inteira no jornal The New York Times, fazendo uma afirmação ousada: “Bacon, asas de frango e bife com emissões net zero. É possível”. Mas, de acordo com uma nova pesquisa, essa declaração da JBS e centenas de outras promessas feitas por outras gigantes do ramo da carne são tentativas vazias para conquistar consumidores e investidores com alegações net zero não comprovadas.
Um estudo, publicado há dois dias na revista científica PLOS Climate, analisou mais de 1.200 declarações em que a indústria da carne anunciou suas intenções de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) ou alcançar a neutralidade de carbono em suas operações. Os autores categorizam 98% dessas declarações como greenwashing.
“Estamos num momento em que realmente tentamos entender o que é um compromisso real para salvar nosso planeta e o que é relações públicas”, disse Jennifer Jacquet, uma das autoras do estudo. “E muito disso é relações públicas”.
A indústria da pecuária está ciente de que tem um problema de relações públicas. A agropecuária animal é responsável por pelo menos 16,5% das emissões globais totais de GEEs, um número que levou pesquisadores e especialistas em políticas climáticas a recomendar a redução do consumo de carne, especialmente em países desenvolvidos, nos quais as pessoas consomem carne e laticínios em quantidades desproporcionalmente maiores.
Pesquisas apontam que será impossível atingir as metas globais de redução de emissões, mesmo com cortes radicais no uso de combustíveis fósseis, sem que haja maiores reduções no consumo global de produtos de origem animal.
As diretrizes nutricionais em muitos países passaram a recomendar um menor consumo de carne tanto por motivos de saúde quanto ambientais, embora tentativas de emitir esse tipo de orientação tenham fracassado nos Estados Unidos — maior consumidor mundial de carne bovina e, historicamente, seu maior produtor.
Jacquet, professora de ciência ambiental e política na Universidade de Miami, estuda há anos as tentativas da indústria de influenciar as políticas públicas e a opinião pública. Em um estudo de 2021, ela e outros colegas descobriram que a indústria da carne gastou milhões de dólares minimizando o papel da pecuária no aquecimento da atmosfera. Esse estudo também revelou que apenas cinco das 35 maiores empresas de agropecuária animal do mundo haviam assumido compromissos para alcançar emissões net zero em suas cadeias de suprimentos.
Nos anos seguintes, mais empresas do setor começaram a fazer uma série de promessas relacionadas ao clima, afirmando que reduziriam emissões e atingiriam o “net zero”. A própria JBS, por exemplo, fez uma mudança brusca de posição. Em 2019, a empresa afirmou que não era responsável pelas emissões de GEEs em sua cadeia de suprimentos. Dois anos depois, passou a fazer promessas ambiciosas, dizendo que alcançaria emissões net zero até 2040.
A JBS e outras gigantes do ramo que fazem promessas net zero vazias estão sujeitas a ações judiciais
Essa promessa acabou chamando a atenção da Justiça. Em 2024, a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, entrou com uma ação judicial acusando a divisão da JBS nos EUA de enganar o público, afirmando que os planos da empresa de expandir a produção eram incompatíveis com suas promessas climáticas.
“Quando empresas anunciam falsamente seu compromisso com a sustentabilidade, elas enganam os consumidores e colocam o nosso planeta em risco”, disse James em um comunicado na época. “O greenwashing da JBS USA explora o bolso dos americanos comuns e a promessa de um planeta saudável para as futuras gerações”.

A empresa chegou a um acordo em novembro do ano passado e concordou em pagar US$ 1,1 milhão, valor que será destinado aos agricultores de Nova York para que possam implantar práticas agrícolas que reduzam suas emissões.
A JBS não respondeu a um pedido de comentário sobre o assunto.
O processo contra a JBS fez Jacquet e seus colegas analisarem as declarações de outras empresas do setor para entender como elas diferem em ambição e planejamento. Observando o mesmo conjunto de dados do estudo de 2021, eles descobriram que 17 empresas passaram a fazer promessas de neutralidade de carbono. (O estudo original analisou 35 empresas; este considerou apenas 33, já que uma delas, a Dean Foods, foi adquirida pela Dairy Farmers of America, e a outra, a Wens Foodstuff Group, não tinha relatório de sustentabilidade disponível em inglês.)
“Assim como a JBS, nenhuma dessas empresas fornece um caminho claro sobre como pretende cumprir tais promessas [de emissões zero]”, disse Jacquet. Apenas uma empresa, a Nestlé, assumiu um compromisso financeiro com medidas relacionadas ao clima, investindo cerca de US$ 4 bilhões, observou ela. Para as demais empresas, acrescentou, “isso mostra que elas não estão colocando qualquer dinheiro onde o discurso está”.
A equipe de pesquisa analisou os sites das empresas e seus relatórios anuais de sustentabilidade, e encontrou 1.233 declarações relacionadas ao meio ambiente e ao clima. Eles verificaram que as empresas forneceram evidências de apoio para apenas 356 dessas declarações além de pesquisas acadêmicas para sustentar apenas cinco delas. Em seguida, utilizando uma estrutura empírica de avaliação de greenwashing, a equipe concluiu que 98% poderiam ser classificadas como tal.
Os autores destacaram que algumas empresas têm metas de neutralidade de carbono, mas fizeram apenas melhorias relativamente pequenas, incluindo a redução do tempo ocioso de caminhões e do uso de papel em instalações específicas, ou melhorias na criação de animais para torná-los mais eficientes no uso de recursos. Algumas também afirmaram que pretendem usar ração que reduz a emissão de metano.
“[As empresas] fazem muitas promessas e fornecem evidência bem pequena de suporte”, conclui o estudo. “Assim como a indústria de combustíveis fósseis, que tem usado o greenwashing nas últimas décadas para adiar ações climáticas significativas, a indústria da carne e laticínios pode estar enganando consumidores e investidores sobre se estão abordando os impactos ambientais (e em que medida), incluindo as mudanças climáticas, e ainda com menos tempo disponível”.
A conclusão está alinhada com as pesquisas recentes de Jacquet, sugerindo que a indústria da agropecuária animal, assim como a dos combustíveis fósseis, tinha conhecimento de seus impactos climáticos muito antes de reconhecê-los publicamente. E assim como o setor de energia, também desenvolveu estratégias para desacreditar as preocupações climáticas relacionadas aos seus produtos.
Artigo original (em inglês) publicado por Georgina Gustin na Inside Climate News (ICN), uma organização independente e sem fins lucrativos que cobre notícias sobre clima, energia e meio ambiente. Este artigo foi traduzido e republicado aqui com a permissão formal da ICN. Assine a newsletter da ICN aqui.

Sobre a autora
Georgina Gustin é uma jornalista que trabalha para a Inside Climate News na cobertura de notícias sobre agricultura. Seu trabalho já recebeu inúmeros prêmios e suas matérias já foram publicadas no The New York Times, Washington Post e The Plate da National Geographic, entre outros. Ela possui diploma de jornalismo pela Universidade de Colúmbia e pela Universidade do Colorado, em Boulder.
