Evolução da modernidade – humanos são grandiosos ou terríveis?

Imagem parcial de uma cidade em ruínas, com um carro enferrujado no topo de duas colunas de pedra ao ar livre para ilustrar o post cujo título pergunta: Evolução da modernidade – humanos são grandiosos ou terríveis?
Dinheiro, tecnologia, complexidade social e guerra são traços culturais humanos que parecem nos separar de outras criaturas. Imagem gerada por inteligência artificial/Copilot.
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  • A modernidade é insustentável: apesar de avanços tecnológicos e científicos, ela gera crises existenciais como mudanças climáticas e esgotamento de recursos.
  • Não há mais “novos mundos” para explorar: as sociedades que não aprenderam a adaptar-se aos recursos locais enfrentaram colapsos.
  • Sabedoria ecológica é vital para o futuro: lições de povos indígenas mostram que a sobrevivência depende de humildade, moderação e respeito aos limites da natureza.

No artigo “The Evolution of Modernity”, o autor Richard Heinberg faz uma reflexão ampla e provocativa sobre a condição humana na modernidade, explorando tanto os avanços tecnológicos e culturais quanto os dilemas existenciais e ecológicos que acompanham esse processo.

O artigo não se limita a dar uma resposta simples à pergunta do título; ao contrário, ele constrói uma narrativa que varia entre a admiração pela capacidade humana de criar e transformar o mundo e a crítica severa às consequências destrutivas que decorrem dessa mesma capacidade.

Assim, o autor tece uma teia na qual ele aborda a relação entre modernidade e crise, a visão ambivalente sobre a espécie humana, os paralelos com os padrões ecológicos, as consequências da colonização, e a necessidade de se desenvolver uma sabedoria ecológica como a dos povos indígenas. Leia a seguir o resumo dos principais pontos abordados no artigo.

A modernidade como um aquário turbulento

O autor inicia este tópico usando uma metáfora poderosa: os humanos contemporâneos vivem em um “aquário” chamado modernidade, assim como o peixe vive na água sem perceber sua presença. Essa imagem sugere que estamos imersos em um sistema de crenças e hábitos, juntamente com uma ajuda enorme da tecnologia, que moldam nossa percepção da realidade, mas que raramente é questionada.

A crítica central aqui é que esse aquário está ficando turbulento. Problemas como as mudanças climáticas, o esgotamento dos recursos naturais e o desaparecimento da vida selvagem são apresentados como sinais de que a modernidade não é sustentável. O autor destaca que, embora sejamos biologicamente iguais aos humanos que viveram há milhares de anos, nossa dependência de máquinas, energia e materiais artificiais nos tornou quase que uma espécie de outro planeta.

O artigo faz um contraste entre duas narrativas: a visão otimista de que a modernidade é o ápice da evolução humana e a visão crítica de que ela é a causa de uma crise múltipla.

Na visão otimista, o autor refere-se à modernidade como a expressão da grandeza humana, capaz de banir a escassez e espalhar inteligência pelo universo. Já na visão crítica, essa modernidade representa um erro de design, insustentável em sua essência, e responsável por colocar em risco os sistemas planetários de suporte à vida.

Imagem interna de um shopping center abandonado e parcialmente tomado por plantas para ilustrar o post cujo título pergunta: Evolução da modernidade – humanos são grandiosos ou terríveis?
A busca constante por modernidade gera problemas que podem colocar em risco a civilização humana como a conhecemos. Crédito: Pixabay.

Essas visões mostram como a mesma realidade pode ser interpretada de formas opostas. Entretanto, o texto vai no sentido claro da crítica, ao apoiar-se nas ideias de autores como Vanessa Andreotti, Tom Murphy e Dougald Hine. Dessa forma, o artigo poderia equilibrar melhor as duas perspectivas, explorando também os argumentos dos defensores da modernidade, para evitar a impressão de que a conclusão já foi feita.

Evolução da modernidade – humanos são grandiosos ou terríveis?

O título do artigo reaparece nesta parte do texto, mas agora na forma de um dilema: se a modernidade é magnífica, os humanos são grandiosos; ou se é catastrófica, os humanos são terríveis.

Mas o autor desconstrói essa dicotomia. Ele argumenta que considerar os humanos como parte da natureza muda a perspectiva, visto que nossas ações, mesmo destrutivas, são produtos da evolução. Assim como outras espécies superexploram seus ambientes e entram em colapso, nós também seguimos esse padrão.

Essa abordagem é interessante porque evita moralizar a questão. Em vez de rotular os humanos como bons ou ruins, o artigo os coloca em um contexto ecológico mais amplo. A crítica que se pode fazer é que essa naturalidade corre o risco de tornar a responsabilidade humana relativa. Ao contrário de outras espécies, nós possuímos consciência e temos capacidade de escolha, o que faz com que nossos erros sejam mais graves.

Quando o autor traça paralelos entre os ciclos ecológicos de expansão e colapso e as sociedades humanas, ele nos lembra de que muitas civilizações viveram Eras Douradas seguidas por Idades das Trevas, e sugere que estamos diante de uma Era Dourada global que está baseada nos combustíveis fósseis e prestes a ser sucedida por uma Era de Trevas.

Sua análise histórica é convincente, pois mostra que o padrão de ascensão e colapso não é novo. A diferença, como o texto ressalta, é que agora o processo é global – o que torna mais perigosa a atual condição do planeta.

Colonizar versus indigenizar

Um dos pontos mais originais do artigo é a distinção entre duas estratégias humanas diante da escassez: indigenizar e colonizar. Nas palavras do autor, indigenizar significa “adaptar o tamanho da população do grupo e seu comportamento de consumo a níveis que possam ser sustentados pelos recursos existentes”; colonizar significa “se deslocar para outro lugar, tomar os recursos de outros grupos ou inventar maneiras de acessar recursos que antes eram inacessíveis”.

A modernidade é apresentada como o triunfo da colonização, mas que agora chegou a um impasse: não há mais lugares para colonizar. Assim, o texto sugere que a única saída é indigenizar, ou seja, aprender com a sabedoria indígena como viver dentro dos limites que os recursos naturais apresentam.

Povos indígenas são bons em se adaptar aos limites que a natureza oferece. Crédito: Fellipe Ditadi/Unsplash.

Essa é uma ideia forte, porque oferece uma direção prática. O autor até cita os tabus tribais identificados por antropólogos, como Johan Colding e Carl Folke, que regulavam a exploração de recursos, e lembra que sociedades como os aborígenes australianos desenvolveram práticas sustentáveis por milhares de anos. Mas o artigo não detalha como essa indigenização poderia ocorrer numa escala global. Ela seria por meio de políticas públicas, tecnologias sustentáveis, ou por mudanças culturais? A ausência de propostas concretas nos faz refletir apenas sobre especulações.

De qualquer forma, essa parte é valiosa porque mostra que a sabedoria ecológica não é apenas uma invenção contemporânea, mas uma resposta recorrente à crise.

Humildade como conselho final

O artigo termina com uma recomendação simples: que os humanos permaneçam humildes, reconheçam que muito do que pensamos saber está errado e que nossa capacidade de agir é limitada.

Essa conclusão evita soluções fáceis e reforça a necessidade de uma postura crítica diante da modernidade. Mas ela pode soar insuficiente para os leitores que buscam respostas mais práticas. Além do que uma análise crítica sugere que a humildade é um ponto de partida, mas que precisa ser acompanhada de ações concretas.

Ao analisar o artigo, é possível perceber que ele se insere em um debate atual sobre o antropoceno – a era geológica marcada pela ação humana. A questão “os humanos são bons ou ruins?” poderia ser reformulada para: somos capazes de reconhecer nossos limites e mudar de rumo? Neste sentido, o texto sugere que sim, ao apontar para a sabedoria ecológica e para a necessidade de humildade. Mas também alerta que o caminho não será fácil, pois exige romper com a lógica colonizadora que nos trouxe até aqui.

O artigo original (em inglês) foi publicado por Richard Heinberg na Resilience.Org – um programa do Post Carbon Institute.

Sobre o autor
Matéria publicada pela equipe Redação SN da Sustenare News.

Visando otimizar a produção, uma parte deste conteúdo foi obtida com a ajuda da inteligência artificial, mas sob supervisão humana para garantir a qualidade da informação.

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