Como a crise climática impulsionou os protestos na França
Os protestos na França feitos por jovens reivindicando melhores condições nas escolas desencadearam uma crise política nacional. A falta de adaptação a um mundo mais quente faz parte dessa história.
Quando Cléo finalmente chegou à aula de grego, ela estava completamente pálida. Era uma quarta-feira de junho, durante a segunda onda consecutiva de calor registrada na França este ano, e a jovem de 16 anos estava tendo dificuldades para lidar com o aumento das temperaturas.
Cléo continuou, pensando que estava apenas cansada. Mas, no dia seguinte, em sua escola sufocante de ensino médio, na periferia leste de Paris, ela foi tomada por náuseas e uma sede desesperadora. A enfermeira da escola, ao reconhecer os sinais de exaustão causados pelo calor, recomendou que ela fosse para casa.
Nesta semana, ao recordar a experiência e se preocupar com as novas ondas de calor que estão por vir, Cléo e seus amigos ficaram ao lado de uma pilha de lixeiras verdes, bloqueando a entrada da escola. Nas últimas quatro semanas, cenas como essa se multiplicaram em milhares de escolas por toda a França, onde os estudantes protestam por melhores condições de aprendizagem e mais investimentos na educação pública.
Tais protestos estudantis se tornaram um dos movimentos sociais mais significativos da história recente do país. Eles foram recebidos com uma repressão policial severa; cerca de oito mil prisões foram realizadas em três semanas, sendo que 85% dos detidos eram menores de idade. Temendo represálias, Cléo e outros estudantes menores de idade que conversaram com a Inside Climate News pediram para ser identificados apenas pelo primeiro nome.
Reivindicações dos alunos nos protestos na França
As reivindicações dos estudantes são bem abrangentes: mais professores, turmas menores, uma jornada escolar mais curta e uma reformulação do sistema de exames que dão acesso ao ensino superior. Mas o cerne da revolta é a indignação com a deterioração da infraestrutura escolar — um problema escancarado pelas ondas de calor que são impulsionadas pelas mudanças climáticas.
Este foi o ano mais quente já registrado na França, e o país contabilizou um excesso de oito mil mortes durante as ondas de calor do verão. Somente em junho, o número de mortes aumentou 11% em comparação com o mesmo mês de 2025.
Enquanto isso, as escolas francesas não foram construídas para o mundo mais quente que os alunos herdaram após gerações de uso de combustíveis fósseis terem desregulado o clima. Muitos prédios foram projetados para reter o calor, e o ar-condicionado é raro. Quando as salas de aula registraram temperaturas máximas acima de 38 graus Celsius (cerca de 100 graus Fahrenheit) nesta primavera, as escolas relataram ocorrências que variaram de desmaios a sangramentos nasais.
Os estudantes que protestavam nesta semana em frente a escolas de ensino médio na região de Paris descreveram uma série de problemas nos prédios que faziam eles se sentirem abandonados pelo governo, incluindo o desabamento de tetos, paredes mofadas, banheiros interditados, falta de cadeiras e infestações de pragas. Para muitos, as ondas de calor recordes deste ano foram o limite, evidenciando a incapacidade de suas escolas de manter os alunos em segurança diante de um clima cada vez mais quente.

“Estamos aqui para reivindicar nossos direitos [e] para fazer nossas vozes serem ouvidas porque estamos fartos deste governo, estamos fartos deste país e já chega”, disse Koumba, uma aluna de 16 anos de uma escola de ensino médio em Montreuil, nos arredores de Paris.
Escolas construídas para um clima diferente
Marie-Hélène Azam é professora de engenharia no Instituto Nacional de Ciências Aplicadas e lidera um projeto que estuda como os prédios das escolas primárias francesas podem ser adaptados para resistir às ondas de calor.
“Estamos percebendo que até o momento projetamos prédios para garantir a eficiência energética no inverno”, disse ela. “Mas precisamos encontrar uma maneira de conciliar o conforto no inverno [e] no verão, e isso significa projetar os prédios de uma forma um pouco diferente”.
Tradicionalmente, as escolas francesas têm janelas grandes para maximizar a entrada de luz solar e o aquecimento. No entanto, quando as temperaturas sobem, isso produz o efeito contrário ao desejado, transformando as salas de aula em estufas.
E, assim como muitos prédios antigos na França, as escolas geralmente têm estruturas pesadas, com uma “inércia térmica alta”, absorvendo, armazenando e depois liberando o calor. Isso é benéfico durante o inverno, mas pode fazer com que as salas de aula fiquem mais quentes por dentro do que do lado de fora nos dias de calor intenso.
O problema não são apenas as temperaturas extremas. A maneira como elas ocorrem agrava a situação.
“Com as ondas de calor se tornando mais intensas e duradouras, já não temos tempo suficiente para resfriar esses prédios à noite ou entre duas ondas de calor”, disse Azam. “Assim que a temperatura do prédio começa a cair, aparece outra onda de calor ainda mais intensa”.
Entre as soluções possíveis estão [instalar] persianas externas para impedir que o sol aqueça as janelas, ventiladores de teto para refrescar os alunos e tecnologias de resfriamento evaporativo que utilizam água para dissipar o calor.
Um porta-voz da região da Île-de-France, responsável pela infraestrutura das escolas públicas de ensino médio na região de Paris, afirmou que US$ 1,2 bilhão foi destinado à construção e à reforma de escolas neste ano, incluindo melhorias nos telhados e nas janelas. Durante as ondas de calor, o governo regional gastou US$ 1,1 milhão para abrir centros de exames adicionais e comprar dispositivos de nebulização de água e ventiladores.
Na França, o ar-condicionado tem sido tratado, até agora, como último recurso para a adaptação climática. Muitos temem que sua instalação generalizada agrave o efeito de “ilha urbana de calor”, que torna as cidades mais quentes do que as áreas rurais, visto que tais aparelhos expulsam o ar quente de dentro para fora, elevando as temperaturas nas ruas. O custo é outro obstáculo, já que os preços da energia na Europa estão entre os mais altos do mundo.
Ansiedade climática além da sala de aula
Os estudantes que protestam não estão concentrados no ar-condicionado. Em vez disso, muitos afirmam estar cientes de que o calor não começa nem termina na sala de aula e que continuará a acompanhá-los bem depois que eles graduarem.
Mas muitos deles citam as mudanças climáticas como uma fonte de ansiedade em relação ao futuro, juntamente com as preocupações com a economia e como a inteligência artificial afetará suas perspectivas profissionais.
Na terça-feira, [as estudantes] Margaux Levy e Raphaëlle Richard marcharam ao lado de centenas de milhares de manifestantes por toda a França. As duas estão entre os muitos universitários que se juntaram aos alunos do ensino médio, na esperança de que os líderes ouçam as preocupações das gerações mais jovens.

Elas se sentaram em um local gramado, segurando cartazes, enquanto outros manifestantes ocupavam a Praça Vauban, no 7º distrito de Paris.
As ondas de calor “são desagradáveis”, disse Levy, estudante universitária do segundo ano. “Dito isso, acho que o problema pode ser enfrentado principalmente por meio de medidas ambientais. Não acho que instalar ar-condicionado nas escolas de ensino médio seja uma boa solução de longo prazo, porque isso só agrava o problema”.
E ela acrescentou: “É bastante perturbador perceber que estamos vivendo em um mundo no qual vamos desaparecer por causa de nossas próprias ações. Não estamos fazendo nenhum esforço, e não estou tentando ser pessimista em relação a isso, mas tudo parece bastante sombrio. Sinto que ninguém vai se esforçar, e os partidos políticos não estão tratando isso como uma prioridade”.
Criados ouvindo alertas sobre as mudanças climáticas, os manifestantes estão acompanhando a crise à medida que ela se desenrola.
“Falamos muito sobre [as mudanças climáticas], mas ainda não estávamos realmente vendo suas consequências em primeira mão. Agora, depois das ondas grandes de calor que enfrentamos, estamos vendo as mortes que elas causam”, disse Richard, aluno do segundo ano de medicina. “A conscientização está aumentando, mas precisa ser acompanhada pelas medidas políticas necessárias”.
Mais cedo naquele dia, a ativista ambiental e social sueca Greta Thunberg se juntou aos estudantes que protestavam em Paris, e visitou uma escola na periferia norte da cidade.
“Esta é uma geração que cresceu com uma sensação de desesperança”, disse ela à Associated Press. “Podemos ver nosso futuro e nossos direitos sendo tirados de nós diante de nossos próprios olhos. O que eles esperam? É claro que as pessoas vão reagir”.
Artigo original (em inglês) publicado por Mathilde Augustin na Inside Climate News (ICN), uma organização independente e sem fins lucrativos que cobre notícias sobre clima, energia e meio ambiente. Este artigo foi traduzido e republicado aqui com a permissão formal da ICN. Assine a newsletter da ICN.

SOBRE A AUTORA
Mathilde Augustin
Jornalista de negócios apaixonada pela interseção entre clima e finanças. Formada pela Universidade Columbia, em Nova York, onde fez mestrado em jornalismo de negócios e economia. Bacharel em Ciência Política pela Universidade McGill, no Canadá.