Os recursos inteligentes de seu carro abrem portas para hackers
A maior ameaça ao seu carro já foi um cabide de paletó combinado com um senso de moralidade questionável. Hoje, os ladrões mal precisam sair do conforto do próprio sofá.
Os veículos modernos são computadores sobre rodas, que se comunicam com seu smartphone, com outros carros, satélites e servidores em nuvem para navegar, proporcionar entretenimento e até dirigir por você. Tudo isso é muito conveniente, certo? Até que alguém com intenções pouco honrosas encontre uma maneira de entrar na conversa digital do seu veículo.
Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Gotemburgo e da Universidade de Tecnologia de Chalmers, na Suécia, constatou que atualmente os maiores riscos de cibersegurança enfrentados pelos veículos modernos estão menos relacionados às operações centrais deles próprios e cada vez mais situados fora deles. E, de forma constrangedora, algumas das vulnerabilidades são básicas.
Entre janeiro de 2022 e setembro de 2024, os pesquisadores examinaram 413 vulnerabilidades de software que afetaram veículos conectados, comparando suas descobertas com os problemas de segurança documentados ao longo da década anterior. E descobriram uma mudança marcante nos locais em que os problemas estão surgindo.
Décadas atrás, os ladrões de carros precisavam ter acesso físico a um veículo para roubá-lo. Desde então, os padrões de ataque evoluíram e se tornaram mais remotos. Os aplicativos externos — incluindo websites, apps e serviços em nuvem — agora representam mais de um terço das vulnerabilidades identificadas. Isso corresponde a quase três vezes a proporção encontrada em pesquisas anteriores.
As consequências não são nada agradáveis, visto que as vulnerabilidades de software podem resultar em ataques que comprometem toda a capacidade do veículo de dirigir de forma segura, o que significa que a segurança já não se resume a manter seu carro protegido. Trata-se de você continuar vivo.
O que os hackers podem fazer de forma remota com o seu carro
Em 2015, os pesquisadores da área de segurança demonstraram, em uma apresentação que ficou famosa, como conseguiram interferir remotamente na direção, nos freios e no acelerador de um Jeep Cherokee após obter acesso por meio de seu sistema de entretenimento e informação. Mais de uma década depois, as vulnerabilidades envolvendo tais sistemas continuam sendo um motivo de preocupação.
Uma vulnerabilidade documentada em um sistema de entretenimento e informação do veículo Škoda, por exemplo, poderia permitir que um invasor conectado ao Wi-Fi dele provocasse uma falha no sistema sob determinadas condições.
Não chega a ser um sequestro de carro em uma rodovia no estilo de Hollywood, mas está longe de ser um recurso que você esperaria encontrar no folheto do veículo.
Embora algumas organizações criminosas mais perversas possam manter sua direção ou seus freios como reféns para exigir um resgate, um alvo muito mais comum são suas informações privadas. Seu endereço, seus deslocamentos, sua rotina diária e, provavelmente, até mesmo o local onde você estaciona quando deveria estar no trabalho.
Os riscos não são inteiramente hipotéticos. Em dezembro de 2024, uns estudos revelaram que as informações de localização associadas a cerca de 800 mil veículos de marcas pertencentes ao Grupo Volkswagen haviam sido deixadas acessíveis na internet.
Os invasores exploraram as credenciais desprotegidas da Amazon Web Services utilizadas por um fornecedor terceirizado para coletar as localizações precisas de GPS e dados pessoais, potencialmente permitindo que alguém pudesse reconstruir os deslocamentos de um determinado motorista.
Felizmente, a exposição foi corrigida antes de qualquer exploração maliciosa conhecida. No entanto, nossa privacidade é apenas parte do problema. O estudo também identificou uma mudança preocupante na gravidade das vulnerabilidades relatadas. Quase 45% foram classificadas como de alta gravidade, enquanto que outras 16% foram consideradas críticas. Em comparação, um estudo anterior constatou que apenas 5% das vulnerabilidades se enquadravam na categoria crítica.
Isso não significa que os hackers estejam agora assumindo o controle de milhões de carros. Uma vulnerabilidade representa uma oportunidade potencial, não uma prova de que alguém tenha conseguido explorá-la com sucesso.
Os pesquisadores identificaram haver problemas ocultos em bibliotecas de software de terceiros utilizadas por desenvolvedores do setor automotivo, destacando como essas falhas de segurança podem chegar aos veículos muito antes deles saírem da fábrica. Assim, as descobertas apontam para uma lição simples para os fabricantes: a segurança precisa ser incorporada a todas as etapas do desenvolvimento, e não adicionada posteriormente, como uma reflexão tardia.
Manter os sistemas de entretenimento isolados dos controles essenciais à segurança também ajuda a garantir que uma lista de reprodução comprometida não resulte em um veículo comprometido.
Para os motoristas, as recomendações são conhecidas: instalar atualizações de software, usar senhas fortes e pensar cuidadosamente nas informações pessoais compartilhadas com os serviços conectados.
Afinal, seu carro já sabe por onde você andou. Não há motivos para deixar todo mundo saber também.
Esta pesquisa foi publicada no Software Quality Journal.
Fonte: TechXplore
Artigo original (em inglês) publicado por Mike McRea na New Atlas.

SOBRE O AUTOR
Mike McRae
Escritor veterano e editor de ciência, com uma ampla experiência em ensino e uma missão pessoal de promover a ciência através do jornalismo e da educação. Já escreveu e produziu documentários para a Rádio Nacional ABC, na Austrália, e já proferiu diversas palestras públicas sobre educação, ciência, filosofia, história e psicologia.