Fórmula 1: novas regras de sustentabilidade mudam a forma como as corridas são vencidas
- A gestão de energia e o uso do sistema híbrido agora passam a influenciar diretamente quem vence uma corrida de F1.
- Muitas disputas acontecem pela diferença no bom uso da bateria e não somente pela velocidade do carro e arrojo do piloto na pista.
- As corridas ficaram mais táticas por conta do foco em quando atacar ou quando economizar a energia da bateria.
As primeiras corridas sob os novos regulamentos da Fórmula 1 (F1) entregaram exatamente o que os criadores de regras do esporte esperavam: mais ultrapassagens. No Grande Prêmio da Austrália, em Melbourne, as ultrapassagens na pista quase triplicaram este ano em comparação com as do ano passado. Já no Grande Prêmio da China, o aumento foi menos extremo, mas ainda perceptível.
Isso revelou algo inesperado sobre a nova geração de carros da F1. Muitas das ultrapassagens não aconteceram por conta dos ingredientes clássicos da corrida; ou seja, com o piloto freando mais tarde em uma curva, tendo mais velocidade no pico de reta, ou fazendo uma linha ousada. Em vez disso, muitas vezes as ultrapassagens aconteciam quando um carro ficava temporariamente sem energia elétrica.
Diante de uma das mudanças de regras mais significativas na história do esporte, cerca de metade do rendimento de um carro de F1 agora vem de seu motor elétrico. Os pilotos devem gerenciar com cuidado quando as baterias do carro fornecem ou regeneram a energia.
Quando a bateria enfraquece, o carro fica vulnerável temporariamente. Uma vez que ela recarrega pela energia de frenagem, o piloto pode atacar novamente. Esses ciclos podem criar oscilações repentinas de desempenho dentro de uma corrida – o que tem levantado questões sobre se a proposta da Fórmula 1 para a sustentabilidade muda a forma como as corridas são vencidas.
Uma era de motor mais sustentável
Sob os novos regulamentos, os carros ainda se parecem com máquinas de Fórmula 1, mas a maneira como eles geram e usam a energia está muito diferente. O conhecido motor de combustão turbo permanece, porém agora ele compartilha a energia com o sistema elétrico de forma quase que igualitária.
O motor de combustão agora também funciona com combustível 100% sustentável, projetado para ser neutro em carbono ao longo de seu ciclo de vida. Os próprios carros estão menores e mais leves, com novos sistemas aerodinâmicos ativos que são destinados a reduzir a resistência do ar nas retas.

Grandes mudanças nas regras muitas vezes desencadeiam ondas de experimentação à medida que as equipes buscam novas vantagens, e o gerenciamento de energia de repente se tornou central para a estratégia de corrida.
Em um estudo publicado na Organization Science, meus colegas e eu mostramos que as equipes de Fórmula 1 enfrentam um trade-off estratégico clássico: melhorias incrementais são seguras, mas raramente transformadoras, enquanto inovações radicais podem produzir um desempenho inovador – ou fracasso espetacular.
Um novo tipo de corrida
O Grande Prêmio da Austrália ofereceu um vislumbre antecipado de como as corridas serão afetadas. No início da corrida, os pilotos George Russell (Mercedes) e Charles Leclerc (Ferrari) repetidamente ultrapassaram um ao outro dentro de algumas voltas. Mas o padrão foi incomum, visto que nenhum deles era consistentemente mais rápido. Em vez disso, seus carros alternavam entre fases de esgotamento de energia e recarga. Consequentemente, o resultado pareceu menos com corridas tradicionais e mais com [a gestão para o] fluxo estratégico de energia elétrica.
Nessa nova era híbrida, os pilotos podem precisar ajustar pontos de frenagem ou linhas de corrida para regenerar a eletricidade de forma eficiente. Podem até precisar tirar o pé do acelerador quando em temporadas passadas a mesma situação exigiria aceleração.
Alguns pilotos já expressaram preocupações de que os novos carros possam ser menos instintivos se os limites de energia se tornarem muito restritivos. Se o sucesso depender cada vez mais do gerenciamento dos sistemas de software e fluxos de energia elétrica, alguns pilotos podem sentir que a essência de sua máquina esteja mudando. Depois do Grande Prêmio da China, o veterano piloto Fernando Alonso chamou isso de “campeonato mundial de bateria”, e o atual campeão Max Verstappen comparou a Mario Kart.
O paradoxo da sustentabilidade da Fórmula 1
Há muito tempo a F1 argumenta que ela opera como um laboratório de moonshot, em que a concorrência extrema acelera o desenvolvimento. Tecnologias refinadas em corridas apareceram mais tarde em outros lugares, desde sistemas avançados de frenagem e de manuseio em carros rodoviários a tecnologias de sensores atualmente usadas em hospitais. Até mesmo a coreografia dos pit stops de F1 inspirou procedimentos [que hoje são] usados por equipes médicas de emergência.
A nova geração de motores visa ampliar essa tradição, demonstrando inovação sustentável através de sistemas híbridos avançados e combustíveis sustentáveis. Mas aqui há um paradoxo. As primeiras estimativas sugerem que o novo combustível sintético e net zero da F1 pode custar centenas de dólares por litro, mais de dez vezes o custo do combustível convencional de corrida– e cem ou mais vezes o custo da gasolina regular.
Embora isso mostre o que tecnicamente é possível, a menos que os custos de produção caiam drasticamente, esses combustíveis podem permanecer confinados a supercarros de corrida ou de alto desempenho. Em outras palavras, o esporte pode desenvolver tecnologias sustentáveis impressionantes, mas que podem ser muito caras para a mobilidade cotidiana.
Correndo para o futuro
Nada disso significa que os regulamentos falharam. A Fórmula 1 tem uma longa história de mudanças de regras dramáticas que resultam em inícios de temporadas difíceis antes que os engenheiros desbloqueiem seu potencial. As revoluções tecnológicas do passado, como a aerodinâmica de efeito terrestre no final da década de 1970 ou as unidades de potência híbridas introduzidas em 2009 (e em 2014), exigiam anos de refinamento antes que as equipes as dominassem totalmente. Algo semelhante pode acontecer este ano.
As duas primeiras corridas da nova temporada ofereceram um primeiro indício de tensão enfrentada pelo esporte, mas permanece incerto se [a mudança vai] finalmente produzir corridas melhores. Às vezes, a diferença entre a nova e a antiga F1 se assemelha ao contraste entre as lutas coreografadas da WWE e a [modalidade olímpica de] wrestling: visualmente mais dramática, embora menos sobre uma disputa atlética crua.
O que está claro é que os regulamentos de 2026 já começaram a remodelar a Fórmula 1 de maneiras que poucos esperavam.
Artigo original (em inglês) publicado por Paolo Aversa na The Conversation UK.

Sobre o autor
Paolo Aversa é Professor de Estratégia na King’s College London (Reino Unido), Professor adjunto na Wharton School, da Universidade da Pensilvânia (EUA), além de Professor Visitante do Centro para Esportes e Negócios, da Escola de Economia de Estocolmo (Suécia). Paolo é considerado um dos principais especialistas acadêmicos na indústria de automobilismo e Fórmula 1.
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Paolo Aversa não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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