Compostagem quente: Qual a mágica por trás dela?
A compostagem comum tem algumas desvantagens que todo jardineiro conhece bem. Simplesmente não é recomendável adicionar ossos ou carne — e alguns jardineiros até evitam cascas de ovos — por medo de atrair insetos nocivos. Além disso, as plantas que produziram sementes não podem ser adicionadas, pois o solo ficará cheio de ervas daninhas. Também não podemos adicionar plantas doentes, por que as doenças podem permanecer no solo resultante, prontas para infectar as culturas do ano seguinte. Além disso, leva muito tempo, e perde-se grande parte do volume dos resíduos de cozinha no processo de decomposição.
Então, imagine um novo tipo de compostagem que evite todos esses problemas de uma vez só — chega de sementes de ervas daninhas, chega de doenças, chega de insetos nocivos. Imagine poder compostar quase tudo e manter a maior parte da biomassa. Finalmente, imagine que tudo isso possa levar apenas algumas semanas, e não meses.
O que faz funcionar a compostagem quente, ou compostagem de Berkeley, é o tipo de bactéria que ela utiliza. Em vez da variedade habitual de bactérias que decompõem os materiais ao longo de vários meses, a compostagem quente encontra o equilíbrio correto dos materiais — mais sobre isso adiante — para atrair as bactérias aeróbicas que geram calor, assim como seu corpo o faz; ou seja, o suficiente para acabar com quaisquer sementes de ervas daninhas e doenças.
Para fazer isso você mesmo, é necessário o equilíbrio correto dos materiais a serem compostados. Se a proporção entre carbono e nitrogênio [C/N] tiver carbono em excesso, o composto não ficará quente o suficiente nem se decomporá rapidamente o suficiente, e será necessário adicionar algo como esterco ou aparas de grama. Se a mistura tiver nitrogênio demais, as bactérias bastante fedorentas assumirão o controle, e a mistura poderá ficar viscosa.
Proporção entre carbono e nitrogênio na compostagem quente
A proporção C/N desejada fica entre 25 e 30 partes de resíduos ricos em carbono para uma parte de resíduos ricos em nitrogênio, proporcionalmente ao peso. Os materiais ricos em carbono normalmente são secos e marrons, como serragem, papelão, papel, folhas secas, palha e outras coisas semelhantes. Os materiais ricos em nitrogênio normalmente são úmidos e frescos, como os resíduos de cozinha, as aparas frescas de grama e as sobras de vegetais. Às vezes, por simplicidade, os materiais ricos em carbono são chamados de “marrons” e os ricos em nitrogênio de “verdes”, mas esses termos podem ser enganosos: a borra de café e o esterco animal, independentemente de sua cor, também são ricos em nitrogênio.
Para obter a proporção C/N correta, tenha em mente que todas as plantas têm mais carbono do que nitrogênio, portanto praticamente todos os materiais têm uma proporção de pelo menos 1/1. As lascas de madeira têm uma proporção de 400/1, o jornal 175/1 e a palha, 75/1. As sobras de vegetais têm cerca de 25/1, as aparas frescas de grama, 20/1 e o esterco de galinha tem cerca de 12/1. A urina tem uma proporção aproximada de 1/1 e é excelente para adicionar ao solo de qualquer maneira que não viole suas ansiedades sociais ou as regulamentações locais.
No início, será um pouco incômodo pesar as coisas antes de adicioná-las e depois fazer as contas, mas rapidamente você adquire uma noção dos efeitos práticos de suas adições mais comuns e vai perceber como elas afetam o conjunto, da mesma forma que acontece ao cozinhar. Você pode ajustar a proporção de determinadas adições; por exemplo, deixar secar as aparas do gramado e depois recolhê-las, enquanto corta outra seção para colocar em um saco e a depositar ainda verde, para obter as proporções desejadas.
Temperatura ideal
Para começar a experimentar isso, primeiro preencha com os resíduos de cozinha uma área cúbica em torno de 1,5 metro de cada lado. Deixe o composto por quatro dias sem revolvê-lo; ao contrário da compostagem casual regular, não continue adicionando material novo ao mesmo recipiente depois de começar. Também seria bom obter um termômetro longo para verificar quão quente ele está ficando; não deixe a temperatura ficar abaixo de 55 °C (130 °F); se isso acontecer, ajuste a proporção ou revolva o composto para oxigená-lo. Tampouco deixe a temperatura passar de 70 °C (160 °F); se isso acontecer, areje um pouco a pilha ou passe uma mangueira com água em volta dela — como discutirei abaixo — para extrair parte do calor.
Depois, revolva o composto a cada dois dias durante os 14 dias seguintes para oxigená-lo, certificando-se de revolvê-lo completamente, de fora para dentro, para que tudo fique bem misturado. No 18º dia, ele deverá parecer solo — mas ainda será necessário deixá-lo descansar por várias semanas antes de plantar nele.
Nem todo mundo tem a quantidade necessária de resíduos orgânicos para tentar fazer isso, mas você poderia fazer com que seus vizinhos participassem, pedindo-lhes que contribuam e reduzam sua cota de lixo, ou fazer o mesmo com as lojas do bairro que jogam produtos fora. Se você mora perto de um parque, poderia verificar se a prefeitura precisa de algum lugar para descartar suas aparas de grama.
A compostagem dessa maneira gera calor que algumas pessoas podem usar para aquecer suas casas ou o abastecimento de água — tomei um banho muito quente do lado de fora em uma manhã irlandesa muito fria, sem usar eletricidade ou combustíveis fósseis. Simplesmente passei a mangueira em espiral pela compostagem, e o calor das bactérias aqueceu a água por si só. Em teoria, as casas em climas mais frios poderiam construir recipientes adjacentes de compostagem quente, talvez em conjunto com uma estufa anexa, e poderiam passar seus canos de água por dentro deles.
Essas inovações simples, se forem administradas corretamente pelas famílias, transformariam rapidamente nossos resíduos em solo numa época em que estamos perdendo o solo rapidamente por conta da erosão. [Tais inovações] reduziriam nossas emissões provenientes do lixo e, ao mesmo tempo, nossas emissões oriundas dos combustíveis fósseis, já que não precisaríamos queimar tanto gás ou petróleo. Além disso, elas também reduziriam nossas dívidas e dependência do governo e das empresas, tudo ao mesmo tempo. Poucas inovações simples, feitas em casa, poderiam ter um impacto tão amplo se fossem largamente adotadas.
Artigo original (em inglês) publicado por Brian Kaller na Resilience.Org – um programa do Post Carbon Institute.

SOBRE O AUTOR
Brian Kaller
Ex-editor de jornal, sua primeira reportagem de capa de revista sobre o pico do petróleo foi em 2004 e, desde então, já escreveu para os portais de notícias The American Conservative, The Dallas Morning News, Front Porch Republic, Big Questions Online e Low-Tech Magazine. Em 2005, mudou-se com a família para a zona rural da Irlanda, onde interage com escolas e igrejas e escreve uma coluna semanal para o jornal local.
NOTA

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