Mercado de carbono será redefinido com nova geração de créditos

Imagem de árvores saindo de uma área alagada no que parece ser um pântano ilustra o post cujo título diz que o mercado de carbono será redefinido com nova geração de créditos.
Preservar a natureza pode oferecer um mecanismo econômico poderoso para reduzir as emissões de carbono. Imagem: Timothy K /Unsplash /WEF /Reprodução.
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Falta menos de 40 meses até o ano de 2030, um marco crítico para as atuais metas dos países no âmbito do Acordo Climático de Paris. Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) diz que ainda é possível alcançar as metas climáticas estabelecidas em Paris, apesar do mundo estar a caminho de ultrapassar o limite de temperatura de 1,5°C nos próximos anos – limite que foi estabelecido naquele acordo. Alcançar essas metas exige reduzir de forma significativa as emissões e remover o carbono que já está na atmosfera.

Felizmente, já temos as soluções à disposição. A natureza é a “tecnologia” original para remover o carbono do mundo, pois ela oferece uma via comprovada e de curto prazo para sequestrar volumes grandes de carbono. As florestas, as áreas úmidas e os oceanos têm absorvido mais da metade de todas as emissões de carbono produzidas pela humanidade a cada ano e, com o investimento adequado, as soluções baseadas na natureza poderiam remover mais seis gigatoneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano até 2050.

A remoção de carbono baseada na natureza é complementar a outras vias, como as soluções de engenharia e a eliminação de superpoluentes — proporcionando uma remoção de alta integridade agora, enquanto outras alavancas ganham escala. Estamos vendo entregas verificadas de créditos de carbono de nova geração gerados pela reconstrução de ecossistemas degradados e pela quantificação do carbono removido à medida que eles se regeneram.

A Mombak restaura áreas de pastagens que foram degradadas na Amazônia por meio de reflorestamento em larga escala com espécies nativas. Em agosto, [a startup brasileira] anunciou que entregou a compradores os primeiros créditos de remoção de carbono de seus projetos de restauração na região, mais de dois anos antes do previsto, incluindo os membros da Symbiosis Coalition, uma coalizão de compradores que busca expandir o mercado da nova geração de créditos de carbono mediante sua remoção baseada na natureza.

O mercado de carbono com base na natureza amadureceu de forma significativa nos últimos cinco anos e começa a apresentar resultados. Infelizmente, a percepção pública sobre os mercados de carbono baseados na natureza, em grande parte, não acompanhou esse ritmo. Apesar de avanços significativos, muitas empresas, formuladores de políticas e instituições mantiveram uma percepção da remoção de carbono baseada na natureza ancorada em um mercado do passado. Para usar todas as ferramentas à nossa disposição para minimizar o pico do aquecimento [global], precisamos redefinir nossa percepção dos mercados de carbono baseados na natureza.

Compradores, formuladores de políticas, cientistas e investidores com visão de futuro sabem que atualmente esse tipo de mercado é muito diferente daquele de cinco anos atrás. E agem de acordo com isso.

Evolução dos créditos de carbono de nova geração com remoção baseada na natureza

1. Rigor e conservadorismo

A nova geração de projetos utiliza as ciências e os dados mais recentes para orientar uma contabilização conservadora do carbono e linhas de base dinâmicas, além de reduzir o risco de vazamento — ou seja, o risco de que proteger uma área simplesmente desloque a atividade prejudicial para outro lugar. Juntas, essas abordagens proporcionam uma certeza muito maior de impacto climático real.

As linhas de base dinâmicas, por exemplo, inspiram-se na lógica dos ensaios clínicos aleatórios, ao medir o impacto de um projeto em relação ao que teria acontecido sem a intervenção. Anteriormente, essa linha de base era medida uma vez no início do projeto e nunca mais revisitada, mas as linhas de base dinâmicas são reavaliadas sempre que os créditos são emitidos, para refletir as condições no local e minimizar o risco de geração excessiva de créditos. As linhas de base dinâmicas estão se tornando cada vez mais o padrão entre os principais compradores, incluindo a Symbiosis Coalition.

2. Durabilidade

A nova geração de projetos baseados na natureza é concebida com a durabilidade em mente desde o início, por que reduz o risco de que o carbono contabilizado e removido seja posteriormente liberado de volta para a atmosfera, o que limitava a confiança nos projetos anteriores. Essas ferramentas incluem monitoramento de incêndios e planos de gestão em áreas propensas a incêndios florestais, ou planos de compartilhamento de benefícios e projetos concebidos com múltiplas fontes de receita que dão aos membros das comunidades um incentivo para manter o projeto além da receita oriunda do carbono.

Abordagens contratuais novas também administram esse risco: fundos fiduciários de permanência ou a substituição contratual de remoções de menor durabilidade por remoções permanentes quando o monitoramento de reversões termina. Cada abordagem substitui os créditos conforme necessário, mantendo o benefício climático. As decisões políticas com uma visão de futuro poderiam ajudar a consolidar essas novas abordagens no cenário global.

3. Financiamento

Inspirados nos Contratos de Compra de Energia, ou Power Purchase Agreements, que ajudaram a ampliar o setor de energia renovável, os contratos de compra antecipada de remoção de carbono estão transformando uma classe emergente de ativos em uma estrutura familiar que os compradores podem usar para tomar as decisões de aquisição.

Esses contratos de longo prazo fixam o preço e a demanda necessária para que os desenvolvedores de projetos possam ajudar a desbloquear os investimentos externos, ampliar seus projetos e catalisar ainda mais o mercado. Os instrumentos de terceiros que foram fundamentais para ampliar outros mercados, como o de seguros, estão cada vez mais disponíveis para apoiar a gestão de riscos entre compradores, desenvolvedores e investidores.

4. Tecnologia

Os avanços em inteligência artificial e dados geoespaciais proporcionam aos compradores um nível maior de confiança – no desenho, quantificação, medição, monitoramento e verificação dos projetos – que anteriormente não era possível alcançar. Por exemplo, a Sylvera anunciou recentemente o Open Carbon Data Project, uma iniciativa inédita para gerar um conjunto de dados de carbono florestal de alta resolução e acesso aberto em toda a Mata Atlântica brasileira.

Com o apoio da Fundação Rockefeller, da Meta, do World Resources Institute, da Symbiosis Coalition e da UESC (instituição brasileira de pesquisa), o projeto busca aumentar a quantidade de dados confiáveis, cientificamente rigorosos e disponíveis para sustentar em escala a medição, o relato e a verificação críveis. E não se trata apenas de carbono. A tecnologia e a IA podem permitir uma compreensão mais abrangente dos impactos desses projetos. Por exemplo, a Mombak usa a ferramenta PerchAI, da Google DeepMind, para quantificar os benefícios da restauração florestal para a biodiversidade.

Esses avanços no mercado, combinados com um processo rigoroso de diligência para avaliar a qualidade dos projetos, a capacidade de expansão e a prontidão comercial, podem dar aos compradores a confiança de que a remoção de carbono baseada na natureza pode proporcionar resultados mensuráveis.

A remoção de carbono dessa forma pode contribuir de maneira crível para nossas metas de combate às mudanças climáticas; no entanto, a janela para aproveitar o valor de curto prazo da natureza está se estreitando.

Os desenvolvedores hoje tomam decisões sobre o plantio e a expansão que determinarão se a oferta de créditos de carbono estará disponível a tempo para os compromissos de emissões net zero de 2030 e 2050.

E os compradores decidem se devem buscar os contratos de compra antecipada de longo prazo que dão aos desenvolvedores a segurança necessária para tomar essas decisões e ampliar a oferta.

Já os formuladores de políticas criam agora as regras para a remoção de carbono (Artigo 6.4 da ONU, CRCF e ETS da UE, metas climáticas UE 2040) que moldarão a forma como os compradores, investidores, desenvolvedores e o mundo responderão. É fundamental que os compradores e os formuladores de políticas evitem ancorar essas decisões importantes em um mercado do passado.

A remoção de carbono poderia ajudar o mundo a cumprir de maneira significativa e crível as metas climáticas, mas não sem contar com a natureza. Agora precisamos que os formuladores de políticas criem as condições adequadas para permitir a expansão [desse mercado] e que mais atores privados financiem essa parte vital da ação climática.

Artigo original (em inglês) publicado por Julia Strong & Susan Cook-Patton no WEF.

SOBRE A AUTORA
Julia Strong

Fundadora e diretora-executiva da Symbiosis Coalition. Líder do compromisso de mercado antecipado firmado pela Google, Microsoft, Meta, Salesforce, Mckinsey, Bain e REI para catalisar a próxima geração de projetos de remoção de carbono baseada na natureza. Possui MBA e mestrado em Meio Ambiente e Recursos pela Universidade Stanford e bacharelado em Estudos Ambientais pela Universidade Yale.

SOBRE A AUTORA
Susan Cook-Patton

Cientista-chefe de reflorestamento na The Nature Conservancy.


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