Meningite nas universidades: por que o risco é maior entre alunos
A semana de recepção dos calouros é planejada para aproximar os alunos novos. Mas o mesmo contato próximo que ajuda as amizades a se formarem também pode facilitar a disseminação de infecções de meningite nas universidades, onde o risco é maior entre os alunos.
A maioria dos casos da chamada “gripe dos calouros” é relativamente leve. A doença meningocócica é diferente. Embora rara, ela pode se desenvolver rapidamente e se tornar potencialmente fatal em questão de horas.
Na Inglaterra, estudantes universitários do primeiro ano têm cerca de sete vezes mais probabilidade de desenvolver a doença meningocócica do que outros jovens em idade semelhante que não frequentam a universidade.
O perigo foi destacado em março de 2026, quando um surto de meningococo do grupo B, ou MenB, na região de Canterbury envolveu 21 casos confirmados entre os alunos e outros jovens. Duas pessoas morreram.
As bactérias meningocócicas podem causar meningite e sepse. A primeira afeta as camadas protetoras que envolvem o cérebro e a medula espinhal, enquanto que a segunda ocorre quando a resposta do organismo à infecção provoca danos potencialmente fatais. Os sobreviventes da doença meningocócica podem ter complicações graves, incluindo a perda auditiva, danos neurológicos e a amputação de membros.
Então, por que os estudantes universitários são particularmente vulneráveis?
Por que a universidade aumenta o risco de meningite?
Uma das características incomuns da Neisseria meningitidis, comumente chamada de meningococo, é que ela pode viver inofensivamente em nosso nariz e nossa garganta sem resultar numa doença. Isso é conhecido como colonização e é particularmente comum entre os adolescentes e os adultos jovens.
A maioria das pessoas que carregam a bactéria nunca fica doente. Mas a bactéria pode se espalhar por meio de um contato próximo ou prolongado, e a universidade cria muitas oportunidades para que isso aconteça.
Milhares de pessoas de lugares diferentes começam repentinamente a estudar, socializar e morar juntas. Umas pesquisas envolvendo adolescentes britânicos e estudantes universitários associaram a colonização por meningococo à frequência a bares e botecos, beijos íntimos e ao hábito de fumar cigarros.
Em um estudo britânico com alunos universitários do primeiro ano constatou que a colonização por meningococo aumentou de 6,9% no primeiro dia na universidade para 23,1% no quarto dia. A pesquisa foi realizada há mais de 25 anos, antes dos programas atuais de vacinação contra o meningococo, portanto, esses números não devem ser considerados estimativas das taxas atuais de colonização. Mas eles ilustram a rapidez com que os meningococos podem circular quando redes sociais novas se formam.
Outras pesquisas mais recentes sugerem que esse padrão não desapareceu. Um estudo de 2026 com estudantes universitários dos Estados Unidos constatou que a colonização aumentou ao longo de um semestre, atribuindo tal aumento aos hábitos de fumar ou vaporizar, beijar e o contato sexual.
Carregar o meningococo não significa que uma pessoa desenvolverá meningite, e a maioria dos portadores não fica doente. No entanto, o aumento da circulação cria mais oportunidades para que a bactéria alcance uma pessoa na qual ela invada a corrente sanguínea ou os tecidos que envolvem o cérebro.
A vacinação oferece uma proteção importante, mas vacinas diferentes protegem contra grupos de bactérias meningocócicas diferentes. A vacina MenACWY protege contra os grupos A, C, W e Y, enquanto que a vacina MenB foi desenvolvida para proteger contra o grupo B. Dados recentes de vigilância mostram que o MenB causou 97% dos casos de doença meningocócica invasiva entre os jovens de 15 a 24 anos na Inglaterra em 2025-26.
O que os estudantes universitários devem fazer
Os alunos que vão para a universidade devem primeiro verificar quais vacinas já receberam.
Na Inglaterra, os adolescentes recebem rotineiramente a vacina MenACWY na escola. Qualquer pessoa com menos de 25 anos que não tenha recebido a vacina pode perguntar ao seu médico de família sobre a possibilidade de atualizar a vacinação, preferencialmente antes de começar a universidade.
Também existe um programa de vacinação única contra MenB na Inglaterra em 2026. Ele inclui as pessoas nascidas entre 1º de setembro de 2007 e 31 de agosto de 2008, e pessoas nascidas a partir de 21 de julho de 2001 que estejam começando a universidade pela primeira vez no outono de 2026. Alguns jovens que começam a estudar em instituições de ensino superior residenciais também são elegíveis.
A vacina MenB é administrada em duas doses com pelo menos quatro semanas de intervalo. Os jovens que são elegíveis podem agendar pelo site do NHS, comparecer a serviços de atendimento sem agendamento de farmácias participantes ou ligar para o 119 caso não consigam agendar pela internet.
A vacinação é apenas uma camada de proteção, porque a meningite em estágio inicial pode ser notavelmente semelhante a doenças comuns durante a semana de recepção dos calouros. Sintomas como febre, dor de cabeça, vômitos e dores musculares podem parecer uma gripe ou outras infecções comuns, ou até ser confundidos com os efeitos de uma ressaca forte.
Os sinais de alerta podem incluir rigidez no pescoço, sensibilidade à luz forte, confusão, sonolência extrema, convulsões, mãos e pés frios ou uma piora acentuada do estado de saúde depois de algumas horas.
A erupção cutânea roxa-escura ou vermelha, já conhecida, que não desaparece quando pressionada com um copo pode ser um sinal de alerta importante, mas a erupção não ocorre em todas as pessoas e pode surgir tardiamente. Os alunos nunca devem esperar pelo aparecimento de uma erupção antes de procurar atendimento médico urgente se houver suspeita de meningite ou doença meningocócica.
Verificar os registros de vacinação antes de começar a universidade oferece aos alunos uma proteção importante, assim como reconhecer os sintomas.
E, se um amigo ou colega de dormitório parecer estar excepcionalmente doente ou tiver dificuldade para acordar, verifique como ele está em vez de presumir que esteja dormindo para se recuperar da noite anterior. É recomendável verificar regularmente alguém que tenha ido dormir doente, porque a doença meningocócica pode piorar de forma rápida. E procurar rapidamente a ajuda médica pode salvar a vida dessa pessoa.
Artigo original (em inglês) publicado por Fran Ludwig na The Coversation UK.

SOBRE A AUTORA
Fran Ludwig
Chefe de Biociência e Química na Universidade Sheffield Hallam. Possui formação em saúde pública, microbiologia e epidemiologia na mesma universidade, onde está concluindo um doutorado em epidemiologia com foco na resistência antimicrobiana em infecções adquiridas na comunidade.
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Fran Ludwig não trabalha, não presta consultoria, nem possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria com este artigo, e não declarou nenhuma afiliação relevante além de sua função acadêmica.
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