Aquecimento global pode popularizar seis alimentos

Representação artística de um mexilhão na concha para ilustrar que o aquecimento global pode popularizar seis alimentos.
Foto: Cortesia Jaci Xlll | Flickr

As mudanças climáticas vão alterar nosso alimento no futuro, independentemente de como nós a enxergamos no presente. Atualmente, somente 13 culturas são responsáveis por fornecer 80% da ingestão de energia de que as pessoas precisam em todo o mundo, e cerca de metade de nossas calorias vem do trigo, milho e arroz. No entanto, algumas dessas culturas podem não crescer diante de cenários com temperaturas mais altas, chuvas imprevisíveis, secas, ondas de calor, inundações e eventos climáticos extremos que já prejudicam plantações em todo o mundo.

“Devemos diversificar nossa cesta de alimentos”, diz Festo Massawe, diretor executivo do Future Food Beacon Malaysia, um grupo do campus da Universidade de Nottingham Malaysia, em Semenyih, que estuda o impacto das mudanças climáticas na segurança alimentar.

Isso vai além do que comemos e como cultivamos o alimento. O truque será investir em todas as soluções possíveis, como o cultivo de culturas para que sejam mais resistentes ao clima, produção de alimentos geneticamente modificados em laboratório e estudo de culturas sobre as quais simplesmente não sabemos o suficiente, diz o ecólogo Samuel Pironon, do Royal Botanic Gardens, em Londres.

Para alimentar uma população que continua crescendo em um mundo de mudanças rápidas, os cientistas de alimentos estão explorando muitos caminhos possíveis, enquanto pensam em como ser ecologicamente corretos.

As preferências do consumidor também fazem parte da equação. “Tem que ser a combinação certa entre parecer bom, ter bom gosto e ter o preço certo”, diz Halley Froehlich, cientista da área de aquicultura e pesca, da Universidade da Califórnia (UC) em Santa Bárbara.

Os seis alimentos listados abaixo podem atender a todos estes requisitos e acabar aparecendo com mais destaque em prateleiras de supermercados no futuro.

1. Painço

Foto: Cortesia Bishnu Sarangi | Pixabay

Fonte de: carboidratos, proteínas e minerais (potássio, fósforo e magnésio)

Usos: grãos integrais, farinha sem glúten, massas, batatas fritas e cerveja

A ONU declarou 2023 como o Ano Internacional do Painço (existem algumas variedades). A quinoa ganhou a mesma honraria em 2013 e suas vendas dispararam.

Cultivado pela primeira vez na Ásia há cerca de 10.000 anos, o painço é um grão básico em partes da Ásia e da África. Comparado com o trigo, milho e arroz, o painço é muito mais resistente ao clima, visto que a cultura precisa de pouca água e prospera em ambientes mais quentes e secos.

Mais algumas boas notícias: o painço é um dos muitos grãos antigos – incluindo teff, amaranto e sorgo – que são igualmente sustentáveis ​​e resistentes (sem deixar de mencionar que podem ser transformados em cerveja).

2. Amendoim Bambara

Foto: Cortesia Sudarsan Vadderi | Pixabay

Fonte de: proteínas, fibras e minerais (potássio, magnésio e ferro)

Usos: assado ou cozido, farinha sem glúten e leite sem lactose

Certamente você já ouviu falar de leite de amêndoa e leite de soja. A próxima alternativa em sua cafeteria pode ser feita de amendoim Bambara, uma leguminosa tolerante à seca nativa da África subsaariana.

Como outras leguminosas, o amendoim Bambara é rico em proteínas. E as bactérias da planta convertem o nitrogênio atmosférico em amônia para que o amendoim cresça bem, mesmo em solo que seja pobre de nutrientes e sem fertilizantes químicos.

Uma melhor compreensão da planta, diz Festo Massawe, da Future Food Beacon Malaysia, pode abrir caminho para programas de melhoramento que possam ajudar o amendoim Bambara a se tornar tão popular quanto é a soja – leguminosa que produz altos rendimentos, mas é menos tolerante à seca.

3. Mexilhão

Foto: Cortesia Kindel Media | Pexels

Fonte de: proteína, ômega-3, vitamina B12 e minerais (ferro, manganês e zinco)

Usos: cozido no vapor, adicionado a pratos de massa, ensopados e sopas

Um delicioso linguine de mexilhão pode um dia se tornar um prato regular no cardápio da família. De acordo com um estudo de 2020 do periódico Nature, os mexilhões, as ostras e outros bivalves [conchas calcárias de duas valvas] podem representar cerca de 40% dos alimentos oriundos do mar até 2050. Sem precisar de irrigação ou fertilização, as fazendas de bivalves são excelentes para aumentar a oferta de alimentos e resultar numa diminuição de preços para o consumidor.

Todos os bivalves têm mérito, mas Halley Froehlich, da UC Santa Barbara, destaca os mexilhões como “super-resistentes”, “super nutritivos” e subestimados. Porém, há uma desvantagem: essas criaturas que formam conchas estão ameaçadas por conta do aumento nos níveis de carbono que fazem a acidificação dos oceanos também aumentar. Nesse sentido, os mexilhões também podem ser de alguma valia.

4. Alga

Foto: Cortesia Ben Wicks | Unsplash

Fonte de: vitaminas, antioxidantes e minerais (iodo, cálcio e ferro)

Usos: saladas, smoothies, salsa, picles, macarrão e batatas fritas; também encontrada em barra de cereais, cremes dentais, xampus e biocombustíveis [entre outros produtos]

As algas oferecem alguns pontos positivos para o clima, visto que elas absorvem dióxido de carbono durante a fotossíntese e podem diminuir a acidez de seus arredores aquosos. Logo, agricultores americanos do Maine e do Alasca cultivam algas e bivalves juntos para que as criaturas sem casca possam se beneficiar da água menos ácida.

Como árvores subaquáticas, as algas também sequestram carbono. Isso significa que cultivar e comer mais algas pode beneficiar o meio ambiente. Embora as algas em geral sejam amplamente consumidas na Ásia há milhares de anos, elas ainda são uma culinária excêntrica em muitos países ocidentais.

5. Ensete

Foto: Cortesia Ileia | Flickr

[Ensete ventricosum é uma planta ornamental africana, conhecida como banana etíope e pertencente à família Musaceae. Ela produz um fruto semelhante à nossa banana, embora a parte comestível não seja o fruto, mas o pão que é feito da massa extraída de sua raiz].

Fonte de: carboidratos, cálcio, potássio e zinco

Usos: mingau ou pão; também usada para fazer cordas, placas e materiais de construção

Tolerante à seca e cultivada na Etiópia, a ensete também é chamada de “a árvore contra a fome” porque seus caules amiláceos podem ser colhidos em qualquer época do ano, tornando-se uma colheita alimentar confiável durante os períodos de seca.

Um estudo de 2021 do periódico Environmental Research Letters sugere que a ensete pode ser expandida para outras partes da África e possivelmente além do continente. O processamento necessário para tornar a ensete comestível é complexo, diz o autor do estudo, James Borrell, do Royal Botanic Gardens. Assim, qualquer possibilidade de expansão dessa planta teria que ser liderada pelas comunidades que detêm esse conhecimento indígena.

6. Mandioca (Aimpim)

Foto: Cortesia Daniel Dan | Pexels

Fonte de: carboidratos, potássio e vitamina C

Usos: raiz cozida inteira, farinha sem glúten e tapioca

A mandioca, um vegetal de raiz amiláceo da América do Sul, cumpre os requisitos de resiliência climática, sustentabilidade e nutrição. Agora cultivada em mais de 100 países, a mandioca pode suportar temperaturas de até 40° Celsius e é tolerante ao sal e à seca. Uma vantagem adicional: níveis mais altos de CO2 atmosférico aumentam a tolerância da planta ao estresse e podem levar a maiores rendimentos.

A mandioca crua pode conter níveis tóxicos de cianeto, mas esse produto químico pode ser eliminado quando a mandioca é descascada e sua raiz é cozida em água.

Uma versão deste artigo apareceu na edição de 7 de maio de 2022 da Science News.

Referências

M.L. Wilson; R. VanBuren. Leveraging millets for developing climate resilient agriculture. Current Opinion in Biotechnology. Vol. 75, 2022, p.102683. doi: 10.1016/j.copbio.2022.102683.

O. Koch et al. Modelling potential range expansion of an underutilised food security crop in Sub-Saharan Africa. Environmental Research Letters. Vol. 17, December 30, 2021. doi: 10.1088/1748-9326/ac40b2.

C. Costello et al. The future of food from the sea. Nature. Vol. 588, December 3, 2020, p. 95-100. doi: 10.1038/s41586-020-2616-y.

R. Pushpalatha; B. Gangadharan. Is cassava (Manihot esculenta Crantz) a climate “smart” crop? A review in the context of bridging future food demand gap. Tropical Plant Biology. Vol. 13, September 2020, p. 201–211. doi: 10.1007/s12042-020-09255-2.

S. Mayes et al. Bambara groundnut: an exemplar underutilised legume for resilience under climate change. Planta. Vol. 250, September 1 2019, p. 803-820. doi: 10.1007/s00425-019-03191-6.

C. M. Duarte et al. Can Seaweed Farming Play a Role in Climate Change Mitigation and Adaptation? Front. Mar. Sci. Published online April 12, 2017. doi: 10.3389/fmars.2017.00100

Agradecimento: Jaci Xlll & Flickr pela imagem do início do texto.

Artigo original (em inglês) publicado por Anna Gibbs na Science News.



Sobre a autora
Anna Gibbs é bacharel em língua inglesa pela Universidade de Harvard e trabalhou como estagiária de redação científica na Science News em 2022.

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