Aminoácidos abundantes em seres humanos é promessa contra o envelhecimento
Um dos aminoácidos mais abundantes encontrados nos seres humanos finalmente recebe o reconhecimento que aparentemente merece, com um novo estudo que mostra o quanto ele é importante para a nossa saúde enquanto envelhecemos. Embora não seja uma solução milagrosa contra o envelhecimento, o estudo sugere que envelhecer bem tem uma importância maior do que a que lhe atribuímos até agora.
O novo estudo, realizado pela Escola de Medicina da Universidade de Yale, reforça as descobertas preliminares de 2023, que identificaram uma conexão entre os níveis de taurina e o envelhecimento saudável e a longevidade em modelos animais. No entanto, os mecanismos específicos pelos quais esse aminoácido atua em nossas células ainda não estavam claros.
Esta pesquisa nova esclarece por que a taurina tem um impacto particularmente significativo na prevenção da inflammaging – inflamação crônica que se torna comum à medida que envelhecemos. Embora não seja a única responsável por afetar negativamente nossa expectativa de vida, as evidências científicas sustentam que ela desempenha um papel fundamental na maneira como envelhecemos de forma saudável.
Os cientistas descobriram que a taurina desempenha um papel fundamental na maneira como o sistema imunológico inato detecta os sinais de perigo. Nosso sistema imunológico inato é responsável por responder rapidamente a novos patógenos ou ameaças biológicas, ao contrário do sistema imunológico adaptativo, que funciona mais como um centro de memória, reconhecendo os agentes infecciosos encontrados anteriormente e desencadeando um ataque mais lento. Se o sistema imunológico inato, a “primeira linha de defesa”, não conseguir impedir a invasão, o sistema adaptativo será ativado.
A principal estratégia de ataque do sistema imunológico inato é desencadear a inflamação. No entanto, à medida que envelhecemos, a eficácia do nosso sistema imunológico diminui; assim, ficamos menos capazes de combater os patógenos, mas nos tornamos mais propensos a desenvolver condições inflamatórias generalizadas.
“Como o sistema imunológico inato não possui receptores específicos para cada tipo diferente de sinal de perigo, esse reconhecimento de padrões sempre foi um mistério”, afirma o autor sênior do estudo, Vishwa Deep Dixit, Ph.D. e diretor do Centro Yale de Pesquisa sobre o Envelhecimento (Y-Age).
Os cientistas também descobriram que, além de fortalecer o nosso sistema imunológico inato, aumentar os níveis de taurina pode, na verdade, também amenizar os sintomas da inflamação associada ao envelhecimento.
“A biologia tem muitas surpresas. E a maior surpresa deste estudo é que a taurina está controlando o mecanismo de detecção do sistema imunológico inato”, afirma Dixit.
A taurina chamou a atenção do cientista quando ele observou, em uma pesquisa, que as pessoas que restringiram a ingestão de calorias por até 12 meses apresentavam níveis mais elevados de taurina em comparação com as que não seguiam qualquer regime alimentar.
A restrição calórica também já foi associada a níveis mais baixos de inflamação. No entanto, não estava claro se a taurina participava ativamente desse processo ou se era um subproduto independente observado pelos pesquisadores.
“Queríamos testar se a taurina é apenas um elemento passivo ou um fator responsável pela redução da resposta inflamatória provocada pela restrição calórica”, acrescenta Dixit.
Sem surpresa, Dixit considerou que, assim como muitos dos componentes fundamentais da nossa biologia, os níveis de taurina poderiam diminuir à medida que envelhecemos. Mas, depois de comparar as amostras de soro sanguíneo de pessoas entre 20 e 40 anos de idade com as de adultos mais velhos, com idades entre 60 e 99 anos, a equipe de Yale descobriu que a taurina, na verdade, aumentava com a idade – algo que eles não esperavam observar de forma alguma.
Consequentemente, isso levou os pesquisadores a levantar a hipótese de que o nosso corpo produz mais taurina à medida que envelhecemos, na tentativa de neutralizar a inflamação desencadeada pelo declínio do sistema imunológico inato.
Inflamação associada ao envelhecimento
Uma parte fundamental da inflamação associada ao envelhecimento envolve a ativação de um complexo molecular conhecido como inflamassoma NLRP3. Essencialmente, o envelhecimento cria o ambiente perfeito para que o NLRP3 se torne excessivamente ativo. Mas… e se a taurina estivesse ajudando a manter o NLRP3 sob controle?
Para descobrir, a equipe cultivou macrófagos – células imunológicas especializadas que englobam e destroem alvos considerados perigosos – e depois as expôs a várias ameaças, incluindo a das toxinas bacterianas.
Em resposta aos sinais, os complexos NLRP3 foram formados nos macrófagos, os quais liberaram até 80% de sua taurina durante esse processo. Porém, quando a equipe colocou a taurina de volta nas células, ela bloqueou a inflamação subsequente causada pela atividade do NLRP3.
“Agora sabemos que a taurina permite a detecção imunológica e funciona como um dos freios dentro das células, mantendo o inflamassoma sob controle”, afirma Dixit.
E, quando os cientistas reduziram os níveis de taurina nos macrófagos de camundongos, a inflamação provocada pelo NLRP3 aumentou, mesmo nos animais jovens.
“O que conseguimos responder é a primeira etapa do quebra-cabeça sobre o que ativa esse sensor tão importante do sistema imunológico inato”, acrescenta Dixit.
Quanto ao motivo pelo qual nosso sistema imunológico inato envelhecido contém tantos macrófagos que liberam taurina ao responder a sinais de perigo, e para onde esse aminoácido acaba indo em nosso organismo, ainda não está claro – mas os cientistas esperam descobrir isso em seguida.
Como a taurina não diminui com a idade, acrescentar mais desse aminoácido à dieta – por meio de fontes como frutos do mar, carnes escuras e algas marinhas – provavelmente não será suficiente para combater a inflamação associada ao envelhecimento. Mas, se os cientistas conseguirem descobrir como fazer com que os macrófagos envelhecidos retenham sua taurina, já que ela parece suprimir a atividade dos complexos NLRP3, isso poderá ajudar a frear um processo inevitável do envelhecimento.
O estudo foi publicado na revista Cell.
Fonte: Escola de Medicina de Yale
Artigo original (em inglês) publicado por Bronwyn Thompson na New Atlas.

SOBRE A AUTORA
Bronwyn Thompson
Formada em jornalismo e em zoologia, possui mais de 20 anos como escritora e editora. Seu interesse particular é em neurociência, genética, biologia evolutiva e comportamento animal. Em fevereiro de 2023, ela encontrou um lar feliz na New Atlas.