Em busca de um substituto para os óleos de cozinha
Se você já procurou um substituto produzido localmente para os óleos de cozinha que normalmente ocupam as prateleiras dos supermercados e as residências, existe uma alternativa que está em crescimento. Uma rede de entusiastas da sustentabilidade está agora produzindo óleo a partir de um recurso nativo da Pensilvânia, um dos centros de produção que mais crescem: as árvores de nogueira-amarga (bitternut hickory).
“Temos essa cultura oleaginosa básica na costa leste da América do Norte que ninguém considera uma fonte de óleo”, disse Brian Nana-Sinkam, chefe de produtos da Third Place Processing, em Oley, Pensilvânia, onde estão instaladas as prensas que extraem o óleo comestível das nogueiras.
Em 2022, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos informou que as importações americanas de óleos vegetais custaram US$ 10,9 bilhões, tornando o país o segundo maior mercado mundial de óleos de cozinha naquele ano. A indústria global depende do transporte marítimo em larga escala e de outras práticas que prejudicam o meio ambiente, como o desmatamento em alguns países. No mercado interno, os agricultores recorrem a herbicidas para cultivar as culturas oleaginosas produzidas em massa de maneira lucrativa.
Enquanto isso, em todo o país, as árvores de nogueira-amarga, também conhecidas como yellowbud, permanecem em grande parte inexploradas quanto ao seu potencial para fornecer um óleo de cozinha saboroso — com exceção de um grupo crescente de coletores, agricultores, processadores, especialistas em agroflorestas e melhoristas de árvores determinados a transformar o óleo de nogueira em um item básico das despensas. Para ter sucesso, eles terão que superar a pouca conscientização do público e os recursos limitados. Por isso, estão começando com um evento de coleta de nozes de cada vez.
À procura de nozes para óleos de cozinha
Em um dia fresco e ensolarado de meados de outubro, um grupo de quase 25 pessoas de todas as idades reuniu-se em torno de uma mesa de piquenique coberta com um tecido azul que exibia o logotipo da Third Place Processing, em um estacionamento na extremidade de uma floresta à beira da estrada, em Oley, a cerca de uma hora a nordeste de Lancaster. Um homem magro, usando um boné laranja da Kubota, passa as nozes de mão em mão para que todos possam identificá-las no chão da floresta.
“Eu não esperava tantas pessoas… então isso é maravilhoso”, disse o homem, Sam Geesaman, responsável pelo pomar da vizinha Bloom Farm e especialista em operações de colheita yellowbud. Ele explicou que havia escondido uns baldes entre as nogueiras para que as pessoas pudessem depositar suas nozes, sob cujas folhas amarelas se espalhavam pelo estacionamento. “Tenho a impressão de que todos vão sair por aí fazendo uma caça aos ovos de Páscoa e dizendo: é minha, é minha, é minha… deixem algumas para as outras pessoas que vêm atrás de vocês. Hoje, o importante é a experiência”.

A experiência serve como primeiro passo para ampliar a conscientização pública sobre as nozes como uma fonte viável de alimentos. Os participantes se espalham pela floresta, com os olhos voltados para o chão, identificando cascas marrom-esverdeadas entre as folhas caídas, terra e gravetos.

“O perfil de sabor é semelhante ao do azeite de oliva”, disse Nana-Sinkam sobre o óleo de nogueira. Seu colega da Third Place, o diretor de operações de processamento Matt Holt, descreve-o como “amanteigado e suave”. Rico em ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 (benéficos para a saúde cerebral e a redução da inflamação), o óleo de noz é ideal para cozinhar. “Mas o mais importante é que essa noz cresce aqui de forma vigorosa”, acrescentou Nana-Sinkam. “Quando as pessoas a experimentam, dizem: ‘Uau, eu não sabia que tinha isso no meu quintal’”.
No movimento pela sustentabilidade, ter acesso aos recursos disponíveis no próprio quintal é melhor do que importar, que é atualmente a maneira como os consumidores americanos obtêm a maior parte de seu óleo vegetal. Em 2024, a produção desses óleos (como os de palma, colza e oliva) dependeu de 364 milhões de hectares de terras agrícolas em todo o mundo, quase 20% da área total do planeta. Essa demanda prejudicou a biodiversidade (florestas do Sudeste Asiático, da América Latina e da África foram devastadas para dar lugar a monoculturas de palma), degradou a saúde do solo e resultou nas emissões de dióxido de carbono e metano.
Para incentivar a coleta de recursos arbóreos locais na Pensilvânia, a Cooperativa Keystone Tree Crop foi lançada em março de 2024. Naquele ano, ela coletou nozes o suficiente para produzir entre cinco e seis galões de óleo, disse seu diretor, Don English. Com a colheita do ano passado, o grupo produziu entre 50 e 55 galões de óleo. Neste ano, segundo English, a meta é produzir 300 galões. Existe uma urgência em ampliar rapidamente a produção. “Somos praticamente a única organização que está fazendo isso”, afirmou.
Um dos objetivos da cooperativa é estabelecer “centros de agregação” em todo o estado, onde os coletores de nozes possam depositar o que colheram em troca de dinheiro ou óleo para uso pessoal. Para facilitar esse processo, a cooperativa começou recentemente a organizar uns eventos de coleta de nozes, como aquele promovido pela Third Place.
No oeste da Pensilvânia, Andrea Ferich, diretora de marketing da cooperativa, administra um centro de agregação. Recentemente, ela liderou um evento de coleta no condado de Blair, onde informou os participantes sobre as nozes e trabalhou com eles para identificar bosques de nogueiras-amargas yellowbud.

“Eu estava realmente interessada em desenvolver um ponto de apoio no caminho para Pittsburgh”, disse Ferich, “e já existia uma comunidade ativa e próspera em torno das culturas arbóreas na região do condado de Blair”. Ferich disse que as pessoas encontram um “significado” na colheita de nozes por meio da “conexão com a comunidade – um hobby que pode ajudá-las a produzir óleo ou a ganhar dinheiro”.
Os moradores amish da Pensilvânia demonstraram um interesse especial em colher as nozes como fonte de renda ou nutritiva. “Dentro da comunidade amish, as notícias se espalham muito rapidamente”, disse ela. Embora as pessoas que conheceu não tivessem o hábito de prensar nozes yellowbuds para produzir óleo (normalmente, elas usam manteiga e banha como gordura), uma mulher amish lembrou-se de coletar e comer nozes de nogueira shagbark quando era jovem. Ela ficou “encantada com o retorno dessas nozes”, disse Ferich, com as quais havia mantido uma “intimidade” durante seu crescimento.
Um “organismo multicelular”
Até agora, a cooperativa Keystone dependeu quase que inteiramente de voluntários. Eles e Nana-Sinkam (que fundou a Bloom Farm, onde cultiva nogueiras, em Oley, com seu irmão Sam, em 2023) aprenderam rapidamente que o maior obstáculo para produzir óleo de nozes em larga escala é o processamento.
Isso fez os irmãos abrirem a Third Place no início deste ano. O local abriga quatro prensas de óleo, uma delas pertencente à cooperativa. A Third Place também é proprietária e administra uma loja de ração nas proximidades, chamada Horse Shoe Feed & Supply (eles estão experimentando utilizar o subproduto rico em proteínas do óleo de nozes como aditivo para a ração). A Third Place tritura as nozes utilizando um moinho de rolos projetado por Levi Geyer, fundador da Fancy Twig Farm, em Parnell, Iowa, que prensa entre 50 e 100 galões de óleo de noz por ano, enquanto a Yellowbud Farm, de Jesse Marksohn, em Massachusetts, fornece as árvores cultivadas sem os “fertilizantes sintéticos, herbicidas, inseticidas [e] fungicidas… comuns no comércio de viveiros”, segundo ele.
“Isso está se tornando um organismo multicelular”, disse Ricky Teigtmeier, cientista de pomares do Instituto Rodale, em Kutztown, Pensilvânia, onde trabalha na identificação de árvores produtoras de grandes quantidades de nozes que possam ajudar a povoar os pomares. O objetivo é promover sistemas agrícolas capazes de produzir um óleo alimentar sustentável em larga escala.
Em Iowa, Geyer observou que a prensagem de nozes para produzir o óleo sustentou seu negócio agrícola diante da redução das margens de lucro. A maioria dos agricultores dos Estados Unidos não tem controle sobre os preços de venda de seus produtos, explicou, nem sobre os preços dos materiais necessários para cultivar. “Eles estão sendo pressionados dos dois lados”, disse ele, enquanto tem controle sobre todo o processo de produção do óleo de noz. “O óleo de nogueira me deu um caminho para continuar existindo como agricultor”.
Ainda assim, Geyer não consegue estabelecer preços competitivos para seu óleo. Considerando o tempo e o trabalho necessários para produzi-lo, ele o vende por US$ 240 o galão, enquanto um galão de azeite de oliva pode custar apenas US$ 22 no atacado. A Third Place planeja vender seu produto por um preço ainda mais alto — US$ 26,99 por uma garrafa de 6,7 onças — a partir de 9 de novembro.
O preço elevado, segundo Nana-Sinkam, deve-se ao fato de que “fazemos toda a coleta na natureza” e pelo tempo considerável que leva para prensar as nozes e extrair o óleo, em vez de recorrer a processos químicos de extração mais baratos. Quando os pomares mais maduros de nogueiras forem estabelecidos dentro dessa rede de produção de óleo para substituir a coleta na natureza, como já ocorre na Bloom Farm e na propriedade de Geyer em Iowa, os preços deverão cair — mas isso pode demorar vários anos.
Outro desafio para a comercialização do óleo de noz é a falta de conhecimento do público. Quando Holt, da Third Place, era mais jovem, ele preparou um óleo de cozinha com uma infusão especial para seus familiares. “Nenhum deles usou”, disse ele, “porque pensavam: é tão especial, quando é que vamos ter outra oportunidade de usá-lo?”.
Holt sugeriu os restaurantes como uma maneira de divulgar os óleos alimentares mais incomuns. “Colocá-los nas mãos de chefs que o incluam no cardápio”, disse ele, pode ser uma medida eficaz para conquistar a aceitação do público.

Enquanto o sol se punha sobre os participantes do evento de coleta em Oley, Nana-Sinkam observou que “eventos como este provavelmente representam o primeiro contato de muitas pessoas com as árvores de nogueira e com as nozes ainda em seu estado natural”.
Os coletores comeram churrasco em pé, ao lado de baldes cheios com quase 14 kg de nozes que haviam recolhido. Emma Smith, uma mulher na faixa dos 20 anos, disse que passa de carro por aquele local o tempo todo e nunca soube que a floresta ao lado era rica em nogueiras. Outra mulher, cujo filho de três anos ziguezagueava entre as pernas das pessoas, disse que ele não parava de anunciar: “Adoro encontrar e pegar nozes”.
Ninguém com quem conversei havia experimentado óleo de noz antes daquele dia. Todos gostaram do sabor, semelhante ao do azeite de oliva — suave, agradável e bem menos intenso em sabor de nozes do que o óleo de avelã que a Third Place também levou para os participantes experimentarem.
“Você já experimentou um pouco desse óleo para saber qual é o sabor?”, perguntou Amanda Funk, cofundadora do Center for Native Knowledge, em Reading, Pensilvânia. “É assim que se criam esses movimentos de soberania alimentar que realmente importam para as pessoas. Eles dizem respeito a ambientes como este, porque você acabou de ver qual é o benefício [do seu próprio trabalho]”.
Artigo original (em inglês) publicado por Jessica Klein na Inside Climate News (ICN), uma organização independente e sem fins lucrativos que cobre notícias sobre clima, energia e meio ambiente. Este artigo foi traduzido e republicado aqui com a permissão formal da ICN. Assine a newsletter da ICN.