Aporte de investidores salvou startup um dia antes de ela falir
- Estratégia para Sobrevivência: A NFW abandonou um amplo portfólio de produtos para focar exclusivamente no Pliant (solas de borracha natural), priorizando a lucratividade imediata em vez da diversificação.
- Desafio da Escala Industrial: A quase falência da startup destaca o “vale da morte” enfrentado por novas tecnologias de materiais: a dificuldade de passar da prova de conceito para a produção em massa com preços competitivos.
- Mercado de Calçados em Expansão: Apesar das dificuldades financeiras, o setor de materiais sustentáveis para calçados continua promissor, com previsão de crescimento anual de 11% e um mercado potencial de US$ 40 bilhões até 2032.
Em 14 de janeiro, investidores resgataram a Natural Fiber Welding (NFW) da beira da falência. O foco específico da NFW, mudando de um amplo portfólio de ofertas para um único produto pronto para venda, reflete tanto a promessa quanto a dificuldade financeira para construir materiais sustentáveis.
A NFW cresceu desde 2015 para se tornar uma queridinha no espaço congestionado da próxima geração de materiais. De sua sede na cidade de Peoria, no estado do Illinois (EUA), e longe da elite do capital de risco, a startup conseguiu arrecadar US$ 224 milhões.
Especialistas em marcas e entusiastas da ciência dos materiais elogiaram as opções que a empresa apresenta como alternativa aos materiais derivados de combustíveis fósseis usados pelas indústrias da moda, carros e móveis. O “couro” vegetal Mirum da NFW já apareceu em bolsas da designer Stella McCartney, em tênis da marca Allbirds e em pulseiras dos relógios IWC Schaffhausen.
Em seus primeiros oito anos de vida, a NFW saltou de 12 para 320 funcionários, operando uma fábrica de 16.000 metros quadrados.
“Nossas receitas funcionam dentro de qualquer fábrica, e isso significa que podemos ter um impacto na maior escala, na escala de bilhões de pessoas”, disse o fundador Luke Haverhals em um vídeo de setembro de 2024, quando anunciou a NFW como finalista do Earthshot Prize [prêmio ambiental global mais prestigioso da história]. Em março do mesmo ano, a startup havia arrecadado US$ 23,7 milhões, um sinal esperançoso após duas ondas de demissões em 2023.
Resgate de última hora
Até o final de 2024, no entanto, a empresa dispensou outros 91 colaboradores. Após uma década construindo novos materiais e parcerias de marca, a NFW “chocou-se contra um muro”.
“Colocamos muitos ovos numa cesta da BMW e na de uma empresa de eletrônicos, e isso não se concretizou de maneira oportuna”, disse o cientista-chefe da NFW, Aaron Amstutz, sobre as tentativas de entregar o Mirum em escala. Em 2022, a maior fatia de financiamento da NFW, US$ 85 milhões, envolveu a BMW iVentures e a Ralph Lauren.
Amstutz continuou: “Você é uma startup, você tem gastos operacionais, tem muitos funcionários e, então, olha os relatórios financeiros e diz: OK, não está funcionando, não podemos arrecadar dinheiro enquanto adiamos o cronograma”.
No início de setembro de 2025, o CEO Steve Zika anunciou um plano para o “encerramento ordenado das operações”.
“A história da NFW reflete um padrão mais amplo que vemos nos materiais sustentáveis”, observou Katrin Ley, diretora administrativa da Fashion for Good, empresa de Amsterdã. “Tecnologia de ponta com potencial genuíno, mas navegando na lacuna existente entre a prova de conceito e a escala comercial, e ao mesmo tempo enfrentando custos altos”, concluiu.
“Todos nós meio que esperávamos [esse desfecho]. Estávamos literalmente a três horas [do momento…] de entrar com o pedido de falência numa tarde de sexta-feira, mas Zika pediu à equipe que esperasse o fim de semana passar”, disse Amstutz. “Tem alguns investidores sondando e acho que podem estar interessados”, relatou ele sobre o que Zika disse.
Naquele sábado, os investidores ligaram.
Meses depois, em 14 de janeiro, a Provest Equity Partners e a CTW Venture Partners anunciaram um investimento na NFW, cujo valor não foi revelado.
Suhas Uppalapati, sócio-gerente da Provest Equity Partners, elogiou a “ciência inovadora da startup combinada com a relevância industrial real”. Ele se tornou o novo presidente da NFW, cargo anteriormente ocupado por Zika.
Enquanto isso, escapar da falência permitiu que a NFW mantivesse seus equipamentos e propriedade intelectual. “Essa continuidade é útil”, disse Amstutz. “Temos esses outros materiais, outras tecnologias, mas estamos descobrindo como podemos fazer isso de forma enxuta, ágil e lucrativa ao longo do caminho. Precisamos trazer um monte de gente de volta”.
Novo foco
Seguindo em frente, a NFW está com o foco em sua oferta mais lucrativa, o Pliant. O material da sola externa do calçado surgiu a partir de um pedido em 2020 de Eric Liedtke, CEO e cofundador da empresa Unless Collective, para ajudar a fabricar um calçado que representasse um estilo de vida totalmente natural.
Perder o Pliant teria sido um “enorme retrocesso” para a Bared Footwear, de acordo com sua fundadora e CEO Anna Baird. O Pliant “alinha-se perfeitamente com nossa missão de criar calçados que um dia possa se decompor sem deixar microplásticos”, disse ela, elogiando o desempenho e durabilidade da sola.

O Pliant é feito com o mesmo processo que funde a fibra natural e que está por trás do Clarus – primeira criação da empresa com o uso de uma fibra natural como alternativa ao poliéster ou nylon. A tecnologia funde as fibras naturais ou polímeros — borracha de árvore, no caso do Pliant — usando calor e pressão, sem aglutinantes ou colas à base de combustíveis fósseis.
“Descobrimos como vulcanizar a borracha sem usar os aceleradores petroquímicos desagradáveis”, disse Amstutz. “Minhas prateleiras estão cheias de suplementos de saúde, vitaminas e extratos de plantas, e nos limitamos a esses ingredientes”.
Nossos parceiros internacionais no Vietnã moldarão o composto Pliant ainda este ano para ser usado em solas de calçados que serão vendidos em 2027.
Amstutz também está desenvolvendo um composto para o mercado de calçados de alto desempenho. “Imediatamente antes disso, eu moldava em nosso laboratório”, disse ele em uma chamada de vídeo.
Com centenas de milhões de sapatos fabricados e descartados todos os anos, as solas são o foco de marcas e varejistas que tentam reduzir as emissões de seus materiais. A organização sem fins lucrativos Fashion for Good está liderando a colaboração Next Stride com Adidas, Target e Zalando para entender os impactos das solas [feitas com] biomateriais e fechar as lacunas de preço com as opções convencionais.
O mercado para materiais de solas de calçados, que em 2024 atingiu US$ 26 bilhões, pode chegar a US$ 40 bilhões até 2032, de acordo com uma pesquisa da empresa Data Bridge. Já a Global Growth Insights projeta que entre 2024 e 2033 o crescimento anual nas vendas de calçados “sustentáveis” deve ser de 11%.
Artigo original (em inglês) publicado por Elsa Wenzel na Trellis.

Sobre a autora
Elsa Wenzel é editora de projetos especiais e ex-editora-chefe do Grupo Trellis. Anteriormente, ela escreveu sobre negócios, tecnologia e sustentabilidade para a PCWorld, CNET, Associated Press, entre outros. Elsa possui mestrado e bacharelado em jornalismo pela Universidade Northwestern e Universidade de Iowa, respectivamente.
