Colocar plantas na fachada de um prédio não o torna sustentável

Imagem de como seria o prédio projetado pelo escritório de arquitetura MVRDV ilustra o post cujo título diz que colocar plantas na fachada de um prédio não o torna sustentável.
Assim como colocar uma folha de manjericão sobre um bife não o torna vegano, plantas sobre um prédio não o torna sustentável. Crédito: Dezeen /Reprodução.
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Os planos para a construção de um prédio novo e grande em Roterdã, destinado a incentivar as pessoas a adotarem estilos de vida mais amigáveis ao meio ambiente, são equivocados e devem ser abandonados com grande alarde público. Colocar plantas na fachada de um prédio não o torna sustentável, assim como colocar uma folha de manjericão sobre um bife não o torna vegano.

No entanto, as buscas por imagens de “arquitetura sustentável” exibem uma página inteira de edifícios novos e grandes – que consomem combustíveis fósseis – com vegetação em suas paredes ou varandas.

O escritório holandês de arquitetura MVRDV ganhou uma concorrência ao apresentar o  Shift Embassy – um exemplo novo de “greenwashing”. Espera-se que o mesmo permaneça sem ser construído.

O cliente, a empresa social Shift, declara que “uma economia baseada em combustíveis fósseis, construída sobre o mito insustentável do crescimento econômico perpétuo, [está] nos levando na direção de uma catástrofe ecológica e social”. Verdade, e a cada verão a prova se impõe em ondas de calor mais longas e intensas, incêndios florestais mais amplos e colheitas cada vez mais prejudicadas.

Acontece que o Shift Embassy, também apelidado de “Rotterdam Rocks!”, é uma resposta bizarra à postura anti-crescimento da organização: um hotel de 200 leitos, restaurante sofisticado, escritórios e um espaço de exposição de 5.000 metros quadrados para atrair turistas internacionais a Roterdã, na esperança de que, uma vez lá, reflitam o suficiente sobre a sustentabilidade para voltar para casa e mudar suas vidas.

Sua estética está atraindo o escárnio usual que cerca os prédios que apresentam uma aparência diferente – comparações com os Flintstones, com fezes e com genitália. A mesma prática, Marble Arch Mound, mostrou quão difícil é fazer os esquemas de vegetação urbana ser convincentes.

A aparência, porém, parece uma preocupação trivial diante da catástrofe ecológica. Eu ficaria feliz se ele tivesse uma aparência consideravelmente pior, desde que fosse menos prejudicial ao meio ambiente.

As superfícies “semelhantes a rochas”, [conforme consta no] press release dos arquitetos são, na verdade, concreto. A MVRDV promete um “concreto de baixo carbono”, mas, se isso significa trocar o cimento por coprodutos industriais como o GGBS (escória moída em alta temperatura), os benefícios para as emissões poderiam ser, no melhor dos casos, insignificantes.

A Instituição dos Engenheiros Estruturais alerta que o fornecimento de GGBS já está quase em sua capacidade máxima; portanto, transportá-lo para este prédio provavelmente significa que outro projeto ficará sem ele e terá que usar cimento comum, de maior carbono.

A engenharia depende de aço recuperado. Reutilizar uma viga é frequentemente melhor do que derretê-la, mas, novamente, se não for recuperado para este projeto, o mesmo aço seria recuperado ou reciclado para um outro. Cerca de 70% de todo o aço ainda provém de minério, com a reciclagem e recuperação já utilizando a maior parte do aço sucata. Em outras palavras, o aço recuperado também não é uma solução mágica para a descarbonização.

Iniciativas positivas na proposta do prédio

Há algumas iniciativas boas na proposta. A área de exposição terá certa latitude de variação de temperatura ao longo do ano, ao contrário dos escritórios, hotel e restaurante, que exigem “ambientes internos de alta qualidade” – código, presumivelmente, para o resfriamento excessivo e desconfortável da maioria dos interiores comerciais no verão e para o aquecimento opressivo durante o inverno.

O restaurante será baseado em plantas. A Shift também pretende cultivar o máximo de vegetação possível ao redor do prédio. Se você realmente precisa construir um novo prédio, uma faixa de temperatura mais ampla, plantio extensivo e catering sem carne são boas medidas.

Há uma honestidade bem-vinda na forma como a Shift discute os aspectos negativos de um prédio novo “icônico”. Seu argumento é que, ao influenciar o comportamento futuro dos visitantes, “a estimativa do impacto social é dez mil vezes maior do que o impacto ambiental associado à construção e ao uso de energia do prédio”.

Essa cifra pressupõe que, ao longo de 50 anos, 20% dos 25 milhões de visitantes projetados reduzirão permanentemente duas toneladas por ano de sua pegada de carbono pessoal como resultado da visita.

Todavia, mesmo que esse número se mostre robusto, o que dizer do impacto social da própria arquitetura? Infelizmente, quanto mais a Shift conseguir se estabelecer na mente de um amplo público internacional como líder em sustentabilidade, maior o dano que seu prédio poderá causar.

Qualquer que seja a análise que a Shift conduzir sobre as qualidades e os problemas ligados à experimentação com materiais de baixo carbono, está errada a mensagem que o prédio transmite como um todo. Ele sustenta o mito de que a arquitetura sustentável significa prédios novos e altos, feitos de concreto e aço com elevadores e sistemas de tratamento de ar poderosos, mas com alguma vegetação sobre eles.

A Shift reconhece que reformar um prédio que já existe teria sido mais sustentável, embora diga que não havia candidato adequado ao novo e enorme projeto Waterkant, do qual sua embaixada fará parte. Em vez disso, a empresa realizou uma grande concorrência de arquitetura para algo novo, denso e icônico – um programa que só poderia realisticamente ser executado com materiais e métodos profundamente insustentáveis e que depende, a partir de então, de milhões de turistas voando pelo mundo em busca de distração e novidade ambientalmente destrutivas.

Isso não é o decrescimento que a Shift defende, mas ainda não é tarde para consertar as coisas. Se a Shift agora abandonar este projeto com grande alarde público, explicando que o custo ambiental é alto demais – um exemplo de pensamento arquitetônico ultrapassado e profundamente insustentável –, ela fará um bem enorme e demonstrará um compromisso profundo e inspirador com o decrescimento.

Se [tal decisão] custar à empresa algum financiamento, que assim seja. Maximizar renda, investimento e gastos de capital não é uma abordagem de decrescimento.

As próprias estimativas da Shift sobre o bem que seu prédio fará são baseadas em atividades piloto nas quais relata que os participantes reduziram suas emissões numa média de 30%. Por que não gastar o valor previsto de €240.000.000 [R$1.400.880.000] que o prédio custará, entregando mais dessas atividades piloto notavelmente eficazes?

Isso economizaria as 15.000 toneladas de emissões de dióxido de carbono equivalente que, segundo relata, serão necessárias para produzir e energizar o prédio da MVRDV ao longo de 50 anos, e as 35.000.000 de toneladas que pressupõe que serão emitidas como resultado das pessoas viajando até lá. Mais importante, porém, a Shift poderia resistir aos danos ambientais devastadores da arquitetura ao estabelecer um exemplo tão poderoso e bem fundamentado de ter a coragem de não prosseguir com um projeto de construção que pode ser evitável.

Atualmente, a indústria da construção e a operação de prédios juntos representam 37% das emissões globais de carbono. A coisa mais inspiradora que qualquer escritório de arquitetura ou cliente pode fazer é optar radicalmente por se livrar desse dano: fazer o uso brilhante do que já existe; ajustar e melhorar de maneiras modestas e impactantes; divulgar os imensos danos ecológicos causados pela construção e operação de novos prédios.

A Shift tem a chance de ser a embaixadora de uma mudança real – uma mudança para entender que a arquitetura sustentável significa uma nova esquadria de madeira em uma janela antiga, não um volume grande de concreto, aço e HVAC com olhar de culpado por trás de uma peruca frondosa.

Fonte: Dezeen

Este texto foi traduzido diretamente do artigo original publicado em inglês por Barnabas Calder no site da Dezeen, a qual detém os direitos autorais sobre o mesmo e proíbe que ele seja reproduzido a partir do site da Sustenare News. Caso deseje republicar algum artigo da Dezeen, por favor, leia os termos dos direitos autorais da empresa.

SOBRE O AUTOR
Barnabas Calder

Professor-doutor e Chefe do Cluster de Pesquisa em História da Arquitetura na Universidade de Liverpool, Reino Unido. Autor dos livros Architecture: From Prehistory To Climate Emergency (2021) e Raw Concrete: The Beauty of Brutalism (2016).


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