O ‘kill switch’ dos ônibus elétricos chineses é uma ameaça invisível nas ruas?

Imagem de vários ônibus produzidos pela empresa chinesa Yutong ilustra o post com o título: O 'kill switch' dos ônibus elétricos chineses é uma ameaça invisível nas ruas?
A Noruega já comprou mais de 100 ônibus elétricos da empresa chinesa Yutong, e descobriu que os chips que equipam os veículos podem ser acessados remotamente pelo fabricante, na China. Crédito: Rute AS/ Divulgação.
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  • A ameaça invisível do “kill switch” é real, ainda que não comprovada. Não há evidências de que o mecanismo tenha sido usado, mas testes e análises confirmam que a possibilidade técnica existe e preocupa.
  • O dilema entre sustentabilidade e soberania. A expansão da frota elétrica atende às metas ambientais, mas expõe países a riscos cibernéticos ligados a fornecedores estrangeiros.
  • A segurança digital como requisito da transição energética. O caso mostra que não basta investir em transporte sustentável, mas é essencial estabelecer regras rígidas de proteção digital para garantir que a inovação não vire uma fragilidade estratégica.

Nos últimos três meses, uma polêmica envolvendo os ônibus elétricos da fabricante chinesa Yutong ganhou espaço em veículos da imprensa internacional, como a Associated Press (AP News) e os jornais britânicos The Telegraph e Daily Mail, só para citar alguns.

O centro da discussão é a possibilidade de existir um mecanismo, chamado de “kill switch”, que permitiria ao fabricante dos ônibus desligá-los remotamente, mesmo quando circulando em países distantes como a Noruega, Dinamarca, Reino Unido ou Austrália. Embora ainda não haja provas de que esse recurso tenha sido usado, o simples fato desse procedimento ser tecnicamente viável já acendeu um alerta sobre a vulnerabilidade das infraestruturas críticas que dependem de fornecedores estrangeiros.

Esse caso é emblemático porque expõe um dilema que vai muito além da tecnologia dos ônibus elétricos. De um lado, governos e empresas de transporte público buscam acelerar a transição energética mediante o uso de frotas sustentáveis, reduzindo emissões e cumprindo metas ambientais. Do outro, a dependência de sistemas digitais controlados por fabricantes estrangeiros levanta questões de soberania, segurança cibernética e até de geopolítica. Afinal de contas, quem controla o software pode muito bem controlar o funcionamento do veículo. Em outras palavras, isso significa que a mobilidade urbana de um país pode estar parcialmente nas mãos de uma empresa sediada em outro continente.

A Noruega está entre os primeiros países a revelar os riscos dos ônibus elétricos da Yutong, ao constatar que os veículos permitem que seu fabricante chinês tenha acesso direto aos sistemas de controle para atualizações de software e diagnósticos, o que “em teoria poderia ser explorado para desligar os veículos à distância”, disse a Ruter, operadora de transporte norueguês, com base nos resultados dos testes publicados em novembro de 2025.

Vários países da Europa e da América do Norte têm tomado medidas para proteger os dados de seus consumidores contra a possibilidade de bisbilhotagem remota de seus sistemas de transporte. Portanto, o estudo norueguês com os ônibus elétricos chineses foi motivado por preocupações desta natureza, visto que a Ruter já possui mais de 100 ônibus elétricos da Yutong em sua frota, conforme relatado pela AP News.

Ônibus elétrico da Yutong, modelo E10. Crédito: Jeng Ting Chen/ Wikimedia Commons/ CC BY-SA 4.0

Outros países também já compraram ônibus elétricos da Yutong, o que fez a preocupação com estes ônibus crescer ainda mais. A AP News publicou que “de acordo com o website da Yutong, a empresa já vendeu milhares de veículos para a Europa, África, América Latina e região da Ásia-Pacífico”.

O Reino Unido também conduziu investigações que confirmaram a possibilidade técnica de desligamento à distância, mas o país preferiu não tomar medidas drásticas para evitar possíveis tensões diplomáticas com Pequim.

Já na Austrália, especialistas em cibersegurança alertaram para os perigos que representa qualquer veículo conectado à internet, lembrando que não se trata apenas de desligar o motor do veículo de forma remota, o que é muito grave, mas também da possibilidade de acesso remoto a suas câmeras, microfones e aos dados sensíveis dos usuários.

A Yutong já se pronunciou oficialmente sobre o assunto dizendo que não há risco de acontecer um “kill switch”, já que os sistemas de direção e frenagem não estão conectados ao módulo de internet, e que os dados são armazenados localmente, com criptografia e controles de acesso. No entanto, a confiança não se constrói apenas com declarações. A história recente mostra que vulnerabilidades digitais sempre podem ser exploradas, e a simples possibilidade de um fabricante estrangeiro ter acesso direto ao coração tecnológico de uma frota pública de transportes deve ser motivo suficiente de preocupação e endurecimento das regras de segurança de qualquer nação.

No momento em que vários países buscam alternativas para amenizar o problema crônico das emissões de dióxido de carbono, produzidas principalmente por veículos que usam gasolina e óleo diesel, e muitos encontraram nos veículos elétricos uma das opções, o episódio dos ônibus da Yutong é um alerta para o mundo: a transição energética e tecnológica não deve ser feita sem considerar a dimensão da segurança digital. Logo, a pressa que os países têm para adotar soluções sustentáveis não pode ignorar o risco de que, em um cenário de tensão ou conflito internacional, seus sistemas de transporte corram o risco de serem paralisados de forma remota. O futuro da mobilidade urbana precisa ser verde, sim, mas também precisa ser seguro.

Fontes: AP News, The Telegraph, Daily Mail

Sobre o autor
Matéria publicada pela equipe Redação SN da Sustenare News.

Visando otimizar a produção, uma parte deste conteúdo foi obtida com a ajuda da inteligência artificial, mas sob supervisão humana para garantir a qualidade da informação.

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