Região do cérebro permanece “atenta” sob o efeito de anestesia
A anestesia geral interrompe a percepção consciente, mas o que nossos cérebros processam enquanto estamos anestesiados?
Neurônios individuais em uma região cerebral conhecida por seu papel na consolidação da memória podem detectar sons inesperados, decodificar as nuances da linguagem e até prever tipos de palavras que virão em uma frase, tudo enquanto um paciente está totalmente anestesiado, de acordo com relatos de pesquisadores na revista Nature há menos de um mês.
Cientistas têm reunido evidências crescentes de que, mesmo inconsciente, nosso cérebro pode acompanhar certos aspectos da fala. “O campo já caminhava em direção a uma visão mais detalhada [do que o cérebro inconsciente pode fazer], mas este estudo amplia muito esse limite”, diz Athena Akrami, neurocientista da University College London, que não participou da pesquisa.
Para observar o cérebro inconsciente, o neurocirurgião Kalman Katlowitz, da Faculdade de Medicina Baylor, em Houston, juntamente com seus colegas monitoraram a atividade nos hipocampos de sete pacientes anestesiados. A equipe usou uma tecnologia desenvolvida nos últimos anos chamada sonda Neuropixels. Esses microeletrodos de alta densidade podem simultaneamente registrar a atividade elétrica de centenas de neurônios individuais, em vez de ouvir a atividade coletiva de grupos de neurônios. A equipe inseriu essas sondas nos hipocampos de pacientes, em um tecido que seria removido cirurgicamente como parte do tratamento da epilepsia.
Enquanto os pacientes estavam sob anestesia geral, os pesquisadores reproduziram vários sons por fones de ouvido. Para alguns pacientes, isso consistiu em uma série de tons puros uniformes intercalados com tons “estranhos” ocasionais e inesperados de frequência diferente. Para outros, os pesquisadores exibiram de 10 a 20 minutos de vídeos educativos e podcasts de histórias, como o [programa] The Moth Radio Hour, para avaliar como o cérebro processa a fala natural.
No experimento com tons, mais de 70% das centenas de neurônios monitorados responderam ao áudio e distinguiram os tons “estranhos” dos tons padrão. Esta resposta neural melhorou em distinguir os tons “estranhos” dos tons padrão ao longo da sessão de 10 minutos. E no experimento de linguagem, neurônios individuais responderam ao comprimento, tipo e significado das palavras faladas. Os padrões de disparo dos neurônios puderam até prever o significado da próxima palavra. Embora os hipocampos desses pacientes tenham mostrado padrões semelhantes aos de cérebros acordados, os pesquisadores estão confiantes de que os pacientes não estavam conscientemente acordados durante o estudo.
“Demonstramos aqui que algumas das coisas mais complexas que o cérebro humano pode fazer, como se adaptar ao ambiente e entender a linguagem, podem funcionar inteiramente de forma independente da consciência”, diz Katlowitz.
Essa descoberta desafia fundamentalmente teorias proeminentes da consciência. Historicamente, algumas abordagens argumentavam que processar a fala e prever palavras futuras requer consciência.
“Os cálculos parecem quase idênticos aos encontrados em cérebros acordados, e ainda assim não produzem consciência, nem memória, nem capacidade de agir”, diz Akrami. Portanto, o trabalho convida os especialistas a refletirem sobre uma questão fundamental: “Se o hipocampo inconsciente pode codificar significados, aprender e antecipar… então para que exatamente serve a consciência”?
Citações
K.A. Katlowitz et al. Plasticity and language in the anaesthetized human hippocampus. Nature. Publicado online em 6 de maio de 2026. doi: 10.1038/s41586-026-10448-0.
Artigo original (em inglês) publicado por Nora Bradford na ScienceNews.

SOBRE A AUTORA
Nora Bradford
Professora no programa de Escrita Crítica na Universidade da Pensilvânia, onde ensina cursos de escrita voltados para tópicos científicos. Obteve seu Ph.D. em 2025 na área da Ciência Cognitiva (com concentração em neurociência cognitiva) pela Universidade da Califórnia, Irvine.
