A Argentina precisa tomar as rédeas de seus minerais críticos

Imagem do deserto de sal de Salinas Grande com máquinas trabalhando na extração sob um céu metade azul e metade com nuvens ilustra o post cujo título diz que a A Argentina precisa tomar as rédeas de seus minerais críticos.
Mineração no deserto de sal de Salinas Grandes, província de Jujuy, Argentina. O norte do país tem grandes reservas de lítio e cobre. Imagem: Cristian Martin /Alamy.
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Para muitos, a corrida pelo lítio sul-americano é apenas mais um capítulo da transição energética: das salinas andinas às baterias elétricas e, de lá, aos carros elétricos da Tesla ou da BYD. Mas esse recorte é limitado. Minerais críticos, como lítio, cobalto, níquel e cobre, são considerados cruciais tanto para a transição energética quanto para a segurança das cadeias globais de abastecimento. Cada vez mais, porém, essa mesma matéria-prima também é usada em sistemas sofisticados de defesa, satélites de vigilância e data centers que sustentam a infraestrutura da inteligência artificial

A Argentina tem grandes reservas de vários desses minerais — principalmente o lítio, mas também o cobre, nas províncias de Catamarca e San Juan. A demanda por esses recursos confere ao país a oportunidade de assumir a soberania sobre seu próprio desenvolvimento econômico. Mas essa chance está sendo desperdiçada.

Soberania perdida

Possuir recursos escassos no contexto global não garante que o poder esteja nas mãos do produtor. Para tirar proveito disso, o Estado precisa saber quem controla as reservas minerais e o destino final do que é extraído. O produtor também precisa ser capaz de definir as condições de uso de seus recursos naturais. Sem esses elementos, outros se enriquecerão enquanto o país produtor permanece subordinado. 

A Argentina não cumpre qualquer um desses critérios. Conforme a reforma constitucional de 1994, o Estado argentino concede a cada província a posse sobre os recursos naturais em seu território. O resultado disso é uma colcha de retalhos regulatória. Atualmente, há 66 projetos de lítio em várias fases de desenvolvimento, quase todos concentrados nas províncias do norte: Catamarca, Salta e Jujuy. Cada um é regulamentado e fiscalizado conforme seus próprios critérios. 

Não há qualquer autoridade nacional capaz de consolidar essas informações, nem de rastrear qual porcentagem de cada remessa de carbonato de lítio acaba em uma bateria de carro, em um drone militar ou em um data center. Sem uma reforma grande do marco regulatório do país, tudo indica que a situação deve se repetir com o restante dos minerais estratégicos. 

A soberania em jogo não é apenas uma questão de quem ganha com a mineração, mas de quem decide sobre o uso final dos recursos extraídos. Nesse aspecto, o Estado argentino e a sociedade civil estão mal preparados.

Galpão em Uspallata, província de Mendoza, exibe grafite com a frase ‘não à mineração em grande escala’. Em fevereiro, a Argentina firmou um acordo com a Casa Branca para priorizar os EUA no fornecimento de lítio, cobre e outros minerais. Imagem: Samuel Jeffery & Audrey Bergner /Flickr, CC BY NC.

A Argentina presa entre superpotências

Esses projetos de mineração avançam em meio a uma mudança abrupta no foco do financiamento internacional dos minerais críticos: menos interesse em descarbonização e mais em domínio tecnológico e militar. Os EUA, por exemplo, têm se mostrado cada vez mais preocupados com o acesso aos minerais críticos, e isso está ligado à sua agenda militar.

O Departamento de Defesa dos EUA adquiriu 15%  de participação na MP Materials, empresa de minerais críticos sediada em Las Vegas, em julho de 2025, tornando-se o maior acionista da mineradora. O país anunciou sua intenção de criar uma reserva estratégica de minerais críticos avaliada em US$ 12 bilhões.

Esses minerais não servem mais apenas à transição energética.

A Argentina está sentindo essa tensão de forma aguda. Em fevereiro, o governo de Javier Milei assinou um acordo com a Casa Branca sobre os minerais críticos, pelo qual o país se compromete a priorizar os EUA no fornecimento de lítio, cobre e outros minerais, tanto na forma bruta quanto processada.

O acordo integra uma estratégia mais ampla dos EUA para reduzir sua dependência da China, que controla cerca de 75% do mercado global desses recursos.

Na prática, porém, o quadro é bem diferente. Cerca de 70% da produção de lítio da Argentina tem como destino final a China. Em maio deste ano, o governo argentino aprovou a expansão de um projeto de lítio no qual a Ganfeng, maior empresa de mineração de lítio da China, é sua acionista majoritária, com 47% de participação. 

Essa é a consequência estrutural da falta de uma política própria por parte da Argentina. O país se alinha retórica e diplomaticamente a Washington, enquanto na prática os maiores investimentos são financiados pelo capital chinês — que recebe os maiores lucros. 

Devido à sua histórica fragilidade econômica, o país se viu preso nessa disputa geopolítica sem os mecanismos necessários para capitalizar sua posição. Isso também agrava décadas de abertura irrestrita ao capital estrangeiro no setor de mineração. Esse sistema dispensa requisitos como fornecedores locais para materiais, rastreabilidade e qualquer preocupação com o desenvolvimento e o crescimento da indústria nacional para além da extração.

Imagem de piscinas de evaporação sob um céu azul e o pôr do sol no horizonte da região de Salinas Grande ilustra o post cujo título diz que a A Argentina precisa tomar as rédeas de seus minerais críticos.
Piscinas de evaporação no deserto de sal de Salinas Grandes, norte da Argentina, onde o lítio é extraído e misturado à salmoura. O país tem 66 projetos de lítio, concentrados nas províncias de Catamarca, Salta e Jujuy. Imagem: Samuel Jeffery & Audrey Bergner /Flickr, CC BY NC.

Crescimento rápido de minerais

Em 2025, a produção argentina de carbonato de lítio ultrapassou as 110 mil toneladas, batendo o recorde histórico. As exportações do setor de mineração atingiram US$ 6 bilhões, quase 30% a mais do que em 2024. A Argentina busca atrair investimentos estrangeiros, e o setor de mineração já representa mais da metade dos quase US$ 95 bilhões em propostas de investimento submetidas por empresas ao Regime de Incentivo a Grandes Investimentos, programa lançado em 2024.

A Agência Internacional de Energia projeta que a demanda global por lítio aumentará nove vezes até 2040, caso a humanidade busque uma descarbonização acelerada. No entanto, essa demanda vem acompanhada de uma disputa crescente entre as grandes potências em torno das cadeias de abastecimento, que agora integram os usos civis e militares do mineral.

O Código de Mineração argentino, de 1886, e o marco de controle provincial sobre os recursos naturais, de 1994, foram concebidos para atrair capital para as regiões com infraestrutura limitada. Mas se baseiam em um modelo voltado à exportação, sem agregar valor ou estabelecer critérios quanto ao destino final dos produtos extraídos. Essas ferramentas são insuficientes para administrar os conflitos geopolíticos do século 21 ligados aos minerais críticos. 

Regulamentações fracas, a falta de rastreabilidade e uma abertura excessiva ao capital estrangeiro podem repetir os erros de velhas corridas por minerais, que deixaram os países produtores vulneráveis e subdesenvolvidos.

A Argentina deve urgentemente iniciar um debate sobre a propriedade, a rastreabilidade e o alinhamento estratégico de seus recursos críticos. Caso contrário, as potências globais e os consórcios privados determinarão, por omissão, quais guerras, servidores e impérios tecnológicos acabarão consumindo as reservas de suas salinas.

Artigo original publicado por Jonatan Nuñez na Dialogue Earth.

SOBRE O AUTOR
Jonatan Nuñez

Membro do grupo de estudo de Geopolítica e Bens Comuns, sediado na Universidade de Buenos Aires, na Argentina.


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