A corrida para construir a infraestrutura da geração 6G já começou

Imagem de um celular sobre o teclado de um laptop ilustra o post cujo título diz que a corrida para construir a infraestrutura da geração 6G já começou.
Os valores fundamentais da tecnologia 6G que definirão a próxima década já estão sendo decididos agora. Imagem: Gerd Altmann /Pixabay.
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Mesmo enquanto a implementação da rede 5G continua em todo o mundo, a corrida para projetar e construir a infraestrutura móvel da geração 6G já começou.

A nova rede 6G global representa uma mudança fundamental no que se espera que uma rede móvel faça. Enquanto as gerações anteriores foram projetadas principalmente como canais para transportar dados entre os dispositivos, a ambição do 6G é tratar a rede como um sistema inteligente.

Isso significa que ela foi projetada para ser “nativamente de IA”, com a inteligência artificial em seu núcleo desde o início. Um exemplo é a detecção e comunicação integradas: ondas de rádio que também funcionam como sensores de radar, detectando movimentos sem a necessidade de câmeras. A coleta de dados e a conectividade em tempo real serão outra forma de uso que é importante na gestão de ambientes urbanos amplamente automatizados.

O problema é que alguém precisa criar o 6G primeiro – e pagar a conta. E este próximo ciclo de tecnologia está herdando muitas questões não resolvidas do 5G, em um cenário tecnológico fragmentado por tensões geopolíticas e ceticismo público.

O desenvolvimento do 6G depende de uma conversa global moldada por instituições como a União Internacional de Telecomunicações (UIT), da ONU, e o 3rd Generation Partnership Project (3GPP), uma colaboração global de organizações responsáveis pelos padrões de telecomunicações. Juntos, eles estabeleceram o plano oficial de implementação do 6G, com o objetivo de criar os primeiros padrões técnicos até 2028. Isso lançaria as bases para o lançamento das primeiras redes comerciais 6G por volta de 2030.

À medida que as telecomunicações migram do hardware físico para o software em nuvem e IA, as operadoras móveis tradicionais dependerão cada vez mais das gigantes da tecnologia – em particular, de grandes provedoras de serviços em nuvem, como a Amazon e a Google – para capacidade de armazenamento e processamento de dados que não conseguem construir por conta própria.

No entanto, essa convergência levanta algumas questões importantes. A infraestrutura nacional pode continuar soberana e segura quando opera em plataformas estrangeiras de nuvem? E com que facilidade os governos podem cooperar para além das fronteiras quando a infraestrutura digital que sustenta suas sociedades é controlada por um punhado de corporações privadas?

Uma nova aliança pelo 6G


No fim de julho, o governo dos EUA anunciou uma nova coalizão de 24 países para o 6G, incluindo o Reino Unido e outros 15 países europeus, além da Índia, Canadá, Austrália, Coreia e Japão. Seu objetivo declarado é combater a indústria chinesa de infraestrutura digital sob a bandeira de “liderança e segurança no 6G”.

Esse anúncio leva a política do 6G a uma nova escala geopolítica. O bloco, liderado pelos EUA, afirma conceber o 6G como o motor e o coração da “competitividade tecnológica, prosperidade econômica e segurança nacional”.

Os aliados têm apenas um concorrente real, a China, e uma lição importante: não repetir os erros estratégicos cometidos durante o desenvolvimento do 5G.

Tais erros foram, principalmente, a falta de uma política industrial coordenada e subestimar a complexidade dos acordos que sustentam essa rede global. Esses equívocos deram à China uma vantagem inicial em hardware, e permitiu que suas empresas dominassem as patentes de 5G e fossem as primeiras a colocar no mercado muitos equipamentos 5G.

A recém-criada coalizão pelo 6G já estabeleceu as metas para consolidar as conexões entre governos, indústria e universidades em questão de meses. Esses vínculos devem evoluir para uma estratégia abrangente de apoio a uma rede 6G global segura no longo prazo.

Um momento fundamental dessa história ocorrerá em outubro de 2027 – em Xangai, na China. Na Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2027 da UIT, os governos negociarão como alocar o espectro de ondas de rádio em múltiplas camadas necessário para o 6G. Isso deverá lançar as bases para a padronização da infraestrutura no ano seguinte.

Mas, para o Reino Unido e a Europa, isso representa um sério dilema: eles não possuem uma escala industrial para substituir toda a infraestrutura chinesa. Mas também temem uma dependência crescente das big techs americanas com a chegada do 6G.

O dilema da Europa


A iniciativa emblemática da União Europeia, Hexa-X, e sua sucessora, Hexa-X-II, financiadas pelas gigantes nórdicas de telefonia móvel Nokia e Ericsson, foram concebidas como projeto de um 6G europeu capaz de enfrentar essas questões. O principal objetivo é produzir tecnologias que possam operar de forma autônoma, sem depender de hardware e software americanos ou chineses.

No Reino Unido, a recente dissolução do Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia e a transferência do portfólio de infraestrutura digital para o novo Departamento de Cultura, Mídia e Esportes geraram semanas de incerteza em todo o setor de tecnologia britânico. Isso ocorreu em um momento crucial para determinar como será o futuro da pesquisa e do desenvolvimento do 6G em nível nacional.

As operadoras móveis locais do Reino Unido ainda estão desativando as antigas infraestruturas 2G e 3G e estão perto de desativar as linhas telefônicas fixas tradicionais. Elas também estão se esforçando para colher os benefícios da rede 5G. Não é fácil para o Reino Unido exercer uma liderança nas redes móveis no exterior enquanto enfrenta todas essas questões internamente.

Neste momento, os valores fundamentais da tecnologia 6G que definirão a próxima década já estão sendo decididos. As redes nativas de IA do futuro terão um custo energético maior, portanto, um dos principais desafios será como minimizar o consumo de energia e manter a trajetória para uma tecnologia sustentável.

A construção de uma infraestrutura nova também corre o risco de reacender as preocupações públicas intensas que foram observadas durante a fase de implantação do 5G. Os temores sobre a radiação eletromagnética e a vigilância rapidamente evoluíram para teorias da conspiração associadas a um histórico de preocupações com a saúde relacionadas às tecnologias sem fio e à tendência de excluir os cidadãos do projeto e da implantação da infraestrutura.

Acertar no 6G requer uma abordagem mais ampla para construir essa nova rede global – como concorda a maioria dos participantes. Incluir os cidadãos nesse processo poderia ser uma ferramenta poderosa para demonstrar desde o início que a infraestrutura não representa apenas um empreendimento técnico ou de engenharia. Ela também é uma questão política e social que moldará o futuro de todos nós.


Artigo original (em inglês) publicado por Natalia Tapia na The Coversation UK.

SOBRE A AUTORA
Natalia Tapia

Pesquisadora Senior em Sustentabilidade Ambiental e Redes Futuras na Universidade de Bristol, Reino Unido. Fez graduação e doutorado em Antropologia pela Universidade Católica do Chile, e possui mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Diego Portales.

Declaração de transparência
Natalia Tapia recebe financiamento do ESRC Centre for Sociodigital Futures.

Parceiros
A Universidade de Bristol fornece financiamento como parceira fundadora da The Conversation UK.


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