Como chegar de forma humana a um futuro com menos consumo?
Com o avanço da idade, tornei-me mais consciente da complexidade do mundo, mas também melhor preparado para chegar a conclusões simples, embora dolorosas.
Todos entendem (ou deveriam entender) que nossa realidade — tanto o mundo físico ao nosso redor quanto o mundo social que construímos — é complexa além da compreensão humana. Mas, com base no que podemos saber, algumas conclusões me parecem inevitáveis. Em meu novo livro, This I Don’t Believe: A Fulfilling Life without Meaning, apresento três dessas observações.
• Os seres humanos estão consumindo o capital ecológico do planeta em níveis que ultrapassam sua capacidade de reposição. O caminho mais sensato a seguir é “menos e menos” — menos pessoas consumindo menos energia e recursos materiais.
• Nenhum movimento grande, político ou social, apoia essa estratégia por causa das “tentações da energia densa”. Há muito consumo desperdiçador nas economias capitalistas, mas é difícil para praticamente todos rejeitar o trabalho que os combustíveis fósseis podem fazer por nós.
• Como ninguém tem um plano viável para uma retirada humana ordenada do excesso ecológico, “o terreno moral elevado é um lugar perigoso para se estar, mesmo quando ele é justificado”. Não há respostas simples e organizadas, e ser arrogante em relação a programas políticos e escolhas pessoais não ajuda ninguém.
O que nos falta é a vontade política coletiva para mudar a trajetória humana, em parte porque falta à maioria de nós a vontade pessoal de mudar nossos próprios comportamentos em busca de energia.
Sim, as empresas petrolíferas ocultaram durante décadas pesquisas sobre as mudanças climáticas para manter os lucros fluindo. Sim, os políticos bloquearam legislações para implementar até mesmo respostas modestas, como um imposto sobre o carbono. A indignação diante da ganância e da corrupção entre os poderosos é apropriada. Não estou culpando as pessoas comuns, mas reconhecendo como todos nós estamos implicados.
Vamos imaginar a possibilidade da nacionalização das empresas de combustíveis fósseis e a nomeação de um conselho de cidadãos para traçar um novo rumo, no qual pudéssemos redirecionar os ativos para a energia renovável. Os membros do conselho de cidadãos encerrariam imediatamente a extração de petróleo? Se o fizessem, como operaríamos a infraestrutura mundial baseada em petróleo da qual todos dependemos?
Como priorizar o consumo de energia
Como decidiríamos coletivamente priorizar o consumo dos estoques de petróleo que restam para garantir que a infraestrutura crítica funcione durante uma transição? Como priorizaríamos os usos contínuos de energia, já que nenhuma combinação de fontes de energia renovável poderia substituir a energia densa dos combustíveis fósseis?
Embora as fontes de energia renovável estejam se expandindo e ficando mais baratas, os Estados Unidos, por exemplo, ainda geram 79% de sua energia a partir de combustíveis fósseis. Como resolveríamos as reivindicações concorrentes pelos benefícios dos combustíveis fósseis restantes que poderiam ser usados de maneira responsável?
Alguns usos de energia e recursos materiais são frívolos e vistos como desperdiçadores segundo qualquer padrão — é difícil imaginar alguém apresentando um argumento sério de que iates são essenciais para o florescimento humano. Mas muitos usos de energia simplesmente tornam nossas vidas mais fáceis.
Imagine que você precise cavar uma vala para instalar uma tubulação de água de um poço até sua casa. Essa tubulação, no meu caso, precisa ficar abaixo da linha de congelamento, que nas montanhas do norte do Novo México, onde moro, fica a cerca de 1,2 metro de profundidade. Do poço até minha casa são mais de 90 metros, o comprimento de um campo de futebol. Parte da razão para essa distância é a regra de afastamento do campo de infiltração do sistema séptico, necessária se quisermos ter um banheiro dentro de casa, que é bem mais conveniente do que uma privada externa, especialmente no inverno. Essa vala também conduz a eletricidade que alimenta a bomba do poço, necessária se eu não quiser bombear água à mão. Voltando à vala: você pode cavá-la à mão com uma pá ou usar uma retroescavadeira. Cavá-la à mão levaria semanas para uma pessoa. Ligue a retroescavadeira, e você termina em um dia, sem dores nas costas. Qual você escolheria?
Até mesmo nossa casa modesta, com a infraestrutura moderna que a maioria de nós considera garantida, depende do carbono altamente concentrado dos combustíveis fósseis. A fantasia atual de que eletrificar tudo resolverá nossos problemas ignora a realidade de que nem tudo pode ser eletrificado de maneira sustentável e de que a extração dos recursos necessários para construir uma infraestrutura de energia renovável requer o uso de combustíveis fósseis.
Durante a maior parte da história humana, nem mesmo as pessoas mais ricas poderiam ter imaginado a maneira como as pessoas comuns das sociedades afluentes vivem hoje.
A maioria de nós entende que o consumo desenfreado das sociedades de consumo atuais não é necessário para uma vida plena. Em teoria, poderíamos reconhecer a situação em que estamos — não há como 8 bilhões de pessoas numa sociedade de alto consumo energético e alta tecnologia viverem de forma sustentável — e concordar em reduzir o nível de nosso uso de energia. Na prática, não fazemos isso. Nenhuma sociedade sabe como superar o domínio das “coisas que uma vez possuídas não poderiam mais ser dispensadas”, como colocou [o escritor americano] Wallace Stegner.
É por isso que hoje, em vez de problemas, enfrentamos uma situação sem saída. As várias crises ecológicas em cascata de nossa era — não apenas as mudanças climáticas, mas também a erosão e a degradação do solo, a contaminação química e a perda de biodiversidade — são consequências de uma população grande e dos “estilos de vida” modernos possibilitados pelo consumo de carvão, petróleo e gás. Enfrentamos problemas que provavelmente não têm soluções, se por soluções entendermos encontrar uma maneira das sociedades afluentes continuarem enquanto uma grande parte do mundo não afluente luta para alcançá-las.
Precisamos substituir as fantasias de crescimento infinito por ideias sobre como administrar a contração rumo a esse mundo de menos e menos. Nossas chances de fazer isso de maneira humana dependem de nossa capacidade de ajudar uns aos outros para evitar as tentações do uso denso de energia. Não importa como atribuamos a responsabilidade por criar nossa situação, ninguém sobreviverá reivindicando o terreno moral elevado.
Artigo original (em inglês) publicado por Robert Jensen na Resilience.Org – um programa do Post Carbon Institute.

SOBRE O AUTOR
Robert Jensen
Professor emérito da Escola de Jornalismo e Mídia da Universidade do Texas em Austin. Seu livro mais recente, “This I Don’t Believe: A Fulfilling Life without Meaning”, será publicado pela Blue Ear Books em 2026. Ele também é autor de “It’s Debatable: Talking Authentically about Tricky Topics”, publicado em 2024 pela Olive Branch Press.
NOTA

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