A Europa se uniu para turbinar a energia eólica no Mar do Norte
Pontos Principais:
- Meta ousada: A Europa quer instalar 100 GW de turbinas offshore até 2050, rumo a 300 GW no total.
- Mais do que energia: O pacto envolve independência energética, empregos e bilhões em investimentos.
- Desafios reais: os custos altos e disputas políticas podem atrasar o projeto, mas o vento sopra a favor da transição.
Nos Estados Unidos, o governo de Donald Trump trava uma guerra implacável contra a energia eólica offshore, adotando uma abordagem que engloba todo o governo para impedir a construção de turbinas no mar.
Do outro lado do Atlântico, porém, 10 países europeus formaram uma aliança para desenvolver 100 gigawatts de energia eólica offshore e transformar o Mar do Norte no que o chanceler alemão Friedrich Merz chamou de “o maior reservatório de energia limpa do mundo”.
Na segunda-feira, autoridades da Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Islândia, Irlanda, Luxemburgo, Holanda, Noruega e Reino Unido reuniram-se em Hamburgo, na Alemanha, para assinar uma declaração comprometendo-se a colaborar na construção de uma capacidade eólica offshore que seja suficiente para abastecer quase 150 milhões de lares até 2050.
O documento, chamado de Declaração de Hamburgo, reafirma a meta de construir um total de 300 gigawatts de capacidade eólica offshore na região, embora apenas um terço desse total seja oriundo de projetos internacionais de colaboração transfronteiriça. Os dois terços restantes seriam provenientes de projetos nacionais destinados a alimentar as próprias redes elétricas de cada país.
Pelo menos 100 empresas assinaram uma declaração paralela da indústria, prometendo reduzir os custos das instalações de turbinas eólicas offshore e contratar em torno de 91 mil trabalhadores.
“Este é um movimento não apenas para estabelecer a independência energética europeia, mas para apoiar um setor estratégico que passou por anos muito difíceis”, disse Ollie Metcalfe, chefe de pesquisa em energia eólica da consultoria BloombergNEF.
Contexto geopolítico e obstáculos técnicos
A Europa enfrenta escassez de energia desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, forçando os aliados de Kiev a se afastarem do gás natural barato que o Kremlin fornecia há décadas. O continente aumentou as importações de gás natural liquefeito dos EUA, mas isso se mostrou muito caro e deixou a Europa vulnerável às pressões do governo Trump em questões como a soberania da Groenlândia.
A energia nuclear responde por cerca de um quarto da eletricidade europeia, mas a construção de novos reatores pode levar mais de uma década, e alguns países — como Luxemburgo — continuam firmemente contrários à energia atômica. No norte nublado da Europa, com potencial solar limitado, aproveitar os ventos fortes do Mar do Norte com turbinas offshore representa uma das melhores opções para produzir uma grande quantidade de energia.

Implantar o pacto será mais difícil do que assiná-lo. Países com preços mais baixos de eletricidade podem enfrentar resistência a um acordo transfronteiriço com nações cujas políticas de mercado elevaram as tarifas. A Noruega, por exemplo, tem preços relativamente baixos graças ao seu vasto sistema de hidrelétricas. Já as exportações de eletricidade norueguesa para o continente — onde a decisão da Alemanha de fechar suas usinas nucleares ajudou a elevar as tarifas a níveis recordes — têm gerado reação política interna.
“Às vezes, os aspectos técnicos parecem os mais difíceis de superar, mas na realidade são as barreiras políticas e regulatórias que acabam sendo as mais complicadas de resolver”, disse Metcalfe.
A Noruega deve contribuir com menos turbinas, prevê a BloombergNEF, porque sua plataforma continental mergulha rapidamente em águas profundas, dificultando a instalação de turbinas fixadas ao leito marinho. O país tem experimentado turbinas flutuantes, mas a tecnologia ainda é pouco madura. Além disso, sua indústria offshore tradicionalmente se concentrou em petróleo e gás. Já Luxemburgo, sem litoral, participa apenas com financiamento.
Empresas envolvidas
Gigantes europeus da energia eólica offshore, como a norueguesa Equinor e a dinamarquesa Ørsted, devem ser fornecedores importantes, segundo Gaurav Purohit, vice-presidente de finanças de ativos europeus da agência de classificação Morningstar DBRS. Com o governo dos EUA pressionando projetos no país, como o Revolution Wind da Ørsted em New England e o Empire Wind da Equinor em Nova York, o desenvolvimento no Mar do Norte permitirá que essas empresas redirecionem seu capital para a Europa.
Outros beneficiários prováveis incluem as alemãs RWE, TenneT e Amprion, e a francesa TotalEnergies, que se comprometeu com uma grande expansão das renováveis — uma postura contrária à das petroleiras. Embora empresas chinesas de energia eólica offshore em rápido crescimento estejam tentando entrar no mercado da Europa, Purohit acredita que os desenvolvedores europeus terão mais vantagens.
Ele alerta, porém, que os altos custos de construção, especialmente com juros elevados e inflação aumentando os preços dos materiais, significam que os projetos provavelmente “precisarão que instituições financeiras assumam uma participação”.
Aumentar as conexões de transmissão é fundamental, disse Matt Kennedy, executivo responsável pela área de sustentabilidade na IDA Ireland, agência governamental irlandesa que atrai investimentos estrangeiros. Atualmente, a Irlanda está conectada a outros sistemas apenas por linhas de energia para o Reino Unido. Em 2028, o Celtic Interconnector, uma linha de 700 megawatts ligando Irlanda e França, deve entrar em operação, estabelecendo a primeira transmissão direta entre a ilha e o continente.
Kennedy afirmou que essa linha bidirecional vai acelerar a construção de energia eólica offshore na Irlanda, onde o setor tem sido prejudicado por gargalos de planejamento e, como na Noruega, pela queda abrupta da plataforma continental. A Irlanda já possui uma indústria de energia eólica onshore que é grande e tem 7 gigawatts de turbinas offshore aprovados.
“Estabelecer uma ligação com a França realmente define o ritmo para cumprirmos nosso compromisso”, disse Kennedy. “Este é um passo radical. É um avanço enorme para a Irlanda em termos de fornecimento da arquitetura necessária para acessar o mercado europeu. Isso nos permitirá exportar uma abundância de energia renovável que planejamos ter, mas também, em momentos de necessidade, importar”.
O pacto não é apenas energia renovável pelo bem do ambientalismo, disse Ed Miliband, secretário britânico de Estado para Segurança Energética e Net Zero. “Nossa visão sobre a energia eólica offshore é pragmática, não sentimental”, afirmou à Euronews. “Acredito que a energia eólica offshore é para vencedores. Países diferentes perseguirão seus interesses nacionais, mas estamos muito claros sobre onde estão os nossos”.
Tradução autorizada e adaptada pela Sustenare News, com base no artigo original (em inglês) publicado por Alexander Kaufman na Canary Media em 28/01/2026.

Sobre o autor
Alexander Kaufman é um premiado repórter e escritor nova-iorquino que cobre energia e mudanças climáticas há mais de uma década. Suas reportagens percorreram quatro continentes, da Amazônia brasileira à camada de gelo da Groenlândia, da fria estepe da Mongólia à usina nuclear desativada nas Filipinas. Kaufman vive com sua esposa e filha no Brooklyn, em Nova York.
