Por que os europeus desperdiçam tanto alimento

Imagem de uma mão segurando uma faca que raspa o alimento de uma tábua para dentro de uma lata de lixo para ilustrar por que os europeus desperdiçam tanto alimento.
Domicílios europeus desperdiçam mais de 70 kg de alimentos por pessoa a cada ano. Crédito: Magnific.
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Enquanto milhões de pessoas no mundo passam fome, a Europa tem desperdiçado enormes quantidades de alimentos. Ao mesmo tempo em que as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio têm apertado as cadeias de abastecimento, a crise do custo de vida tem empurrado muitas famílias para o limite.

Sem o fortalecimento da sustentabilidade ambiental, da resiliência das cadeias de abastecimento e da acessibilidade doméstica, os riscos para a segurança alimentar aumentarão bastante. Ainda assim, as famílias continuam a descartar enormes quantidades de alimentos comestíveis. Isso não é apenas desperdício, mas calorias perdidas, dinheiro perdido e um problema climático crescente.

Uma nova análise de minha equipe sobre domicílios europeus conclui que eles descartam mais de 70 kg de alimentos por pessoa a cada ano. Estima-se que 69 milhões de toneladas de alimentos foram desperdiçadas na Europa e no Reino Unido em 2025, segundo nossos cálculos com base no desperdício médio de alimentos da União Europeia (EU), Reino Unido e da população combinada atual. Mas isso é um problema mundial: em 2022 — último ano para o qual temos dados — domicílios, varejo e serviços de alimentação desperdiçaram 1,052 bilhão de toneladas globalmente.

A Comissão Europeia relata que um domicílio de quatro pessoas poderia economizar €400 (~R$2.340) por ano com alimentos que acabam sendo desperdiçados. Mas o problema não se resume ao dinheiro. Os principais motores do desperdício de alimentos são a falta de conhecimento e compreensão, preocupações relacionadas à saúde sobre alimentos supostamente vencidos, além do aumento do consumo por conveniência.

Eis por que os europeus desperdiçam alimentos e o que devemos fazer a respeito.

Por que compramos mais do que comemos

Promoções e gatilhos de compra por pânico fazem as pessoas a comprarem mais do que precisam. Ofertas multiproduto, “leve três e pague dois” ou “pague um e ganhe um” incentivam os consumidores para que comprem mais do que precisam. A pressão de tempo e fazer compras com fome também agravam isso. Nossa análise mostra que o planejamento importa: pessoas que verificam sua geladeira e fazem compras com lista desperdiçam menos.

O design do varejo desempenha papel-chave. Embalagens grandes e poucas opções de porções pequenas fazem com que lares unipessoais comprem alimentos que não conseguem terminar. Descontos para produtos próximos da validade podem ajudar, mas apenas se os compradores tiverem um plano para usar ou congelar o alimento. Empurrões no varejo devem ser combinados com ferramentas domésticas, e não deixados ao acaso.

Quando as pessoas entendem a diferença entre qualidade e segurança, elas desperdiçam menos. Crédito: Magnific.

Uma vez em casa, o gerenciamento cotidiano determina se o alimento será consumido ou descartado. A confusão sobre rótulos de data é um grande fator de desperdício que poderia ser evitado. Muitas pessoas tratam o rótulo “melhor se consumir antes” como uma medida de segurança. Elas jogam alimentos fora para evitar o risco de doença. Esse medo pesa mais do que a culpa em desperdiçar uma comida. Uma simples clareza sobre os rótulos reduziria rapidamente os descartes.

Congelar, cozinhar em lotes e rotinas como “primeiro a entrar, primeiro a sair” (usar o estoque mais antigo primeiro, deixando o mais novo por último) reduzem drasticamente a deterioração. Como os alimentos congelados são desperdiçados muito menos que alimentos frescos, ensinar técnicas básicas de armazenamento e preservação rápida é uma solução de baixo custo e alto retorno.

Por outro lado, o planejamento de alimentos pode ser difícil, já que a vida moderna torna as pessoas ocupadas e, assim, elas comem em movimento e muitas dependem de refeições prontas. E essa cultura de conveniência aumenta o desperdício. Normas sociais incentivam comprar comida em excesso. Receber, oferecer hospitalidade e o desejo de oferecer opções fazem os lares cozinharem mais do que precisam. Em algumas culturas, abundância é sinal de cuidado — e isso gera mais comida não consumida nos pratos.

A renda por si só não explica o padrão. Não encontramos relação simples entre o PIB nacional (medida padrão do tamanho de uma economia e do crescimento econômico) e o desperdício doméstico de alimentos. Países mais ricos podem desperdiçar menos, mas a relação é inconsistente e moldada por hábitos locais, turismo e métodos de medição. Os verdadeiros motores são comportamentais e contextuais.

Próximos passos

Nosso estudo aponta três formas claras de fortalecer as políticas e construir a resiliência das cadeias de abastecimento alimentar cortando o desperdício.

Primeiro, consertar os sinais, tanto pela padronização dos rótulos de data como pela promoção de campanhas de informação pública. Quando as pessoas entendem a diferença entre qualidade e segurança, elas desperdiçam menos.

Segundo, mudar práticas do varejo para incentivar tamanhos menores de embalagem, formatos resseláveis e mensagens nas promoções como forma de encorajar para que os itens sejam congelados para uso futuro. Incentivar os supermercados a vender frutas e legumes imperfeitos e a precificar claramente itens próximos da validade para estimular a compra.

Terceiro, apoiar diretamente os domicílios. Financiar aulas comunitárias de culinária, campanhas de gestão de geladeiras e ferramentas digitais simples que rastreiem o que há em casa. Investir em coletas de alimentos na calçada e no tratamento por digestores para que o desperdício inevitável não pare nos aterros sanitários.

Como nenhuma política única resolverá o desperdício doméstico de alimentos, as intervenções devem combinar reforma do varejo, regulamentação clara e apoio ao consumidor. Elas devem ser adaptadas às culturas locais e aos tipos de domicílio e projetadas para fortalecer a manutenção da segurança alimentar.

Podemos reduzir rapidamente o desperdício doméstico de alimentos ao incentivar rótulos claros, compras mais inteligentes e melhor armazenamento. Pequenas mudanças em casa somam grandes economias para o planeta e para o orçamento familiar.

O próximo passo é simples: criar políticas que funcionem para as pessoas onde elas vivem, compram e cozinham. Isso não só reduz o desperdício de alimentos, mas também nos ajudam a economizar dinheiro, reduzir emissões e nos dão dignidade (permitindo que as pessoas acessem e usem alimentos sem vergonha ou julgamento e sem a necessidade de bancos alimentares de caridade).

Tudo isso aumenta nossa segurança alimentar por meio de soluções práticas, baratas e prontas para serem ampliadas. Não há tempo a perder.

Artigo original (em inglês) publicado por Ian Williams na The Conversation UK.

Sobre o autor
Ian Williams é Professor de Ciências Ambientais Aplicadas da Universidade de Southampton e já publicou vários livros e mais de 320 artigos revisados por pares sobre resíduos e questões ambientais. Ele é graduado em Química pela Universidade de Surrey e doutor em Atitudes Públicas sobre Poluição do Ar pela Universidade Middlesex.

Declaração de Transparência
Ian Williams recebe financiamento de conselhos de pesquisa do Reino Unido, incluindo a Impact Acceleration Account do Engineering and Physical Sciences Research Council.

Parceiros
A Universidade de Southampton fornece financiamento como membro do The Conversation UK.


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