Messi é velho, baixo e devagar. Como ainda domina o Mundial?

Imagem de Lionel Messi comemorando um gol na Copa do Mundo ilustra o post cujo título diz
Lionel Messi, da Argentina, comemora depois de marcar um gol contra a Nigéria no Mundial de 2018, na Rússia. Crédito: Kiril Venediktov /Wikimedia Commons CCBY 3.0.
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Lionel Messi tem 39 anos de idade e mede 1,70 metro — mais baixo do que quase todos os zagueiros contra quem joga. Nunca foi extraordinariamente rápido, e agora está mais lento. E ainda assim, ao assistir a esta Copa do Mundo, seria difícil apontar um jogador que cause mais estragos [no time adversário]: até agora ele e Kylian Mbappé, da França, estão entre os jogadores que mais marcaram nesse Mundial.

Como alguém com tão pouco do que poderíamos chamar de atletismo (pelo menos em comparação com seus pares) ainda pode ser o melhor jogador em campo?

O atletismo realmente importa?

Talvez o enigma esteja no sentido contrário. Muitos se surpreendem com Messi apenas porque nos contaram uma história sobre o que faz um atleta ser grande, e essa história trata principalmente do corpo: velocidade, altura, força, condicionamento.

Comparado com essa narrativa, Messi parece uma exceção.

Mas e se o problema for a própria história? E se o futebol nunca foi uma disputa de atributos físicos?

Johan Cruyff, o grande jogador, treinador, comentarista e filósofo do futebol holandês, percebeu isso com clareza há meio século. Ele disse:

“O que é velocidade? A imprensa esportiva frequentemente confunde velocidade com percepção. Se eu começo a correr um pouco antes de outra pessoa, pareço mais rápido”.

É uma observação que soa como um enigma, mas um jogador rápido muitas vezes não é aquele com as pernas mais velozes. Frequentemente é aquele que parte mais cedo e chega primeiro. O que parece velocidade é, muitas vezes, uma vantagem obtida pela percepção.

Cruyff entendeu isso. O que conseguimos fazer mais recentemente foi medir essa vantagem.

A importância da varredura visual

Considere o que acontece nos segundos antes de Messi receber um passe. Observe-o por 30 segundos quando a bola está longe: sua cabeça raramente fica parada. Um olhar sobre o ombro esquerdo, outro para a direita, e então de volta ao jogador que está com a bola.

Gráfico da varredura que Messi faz do campo e dos jogadores para ilustrar o post cujo título diz: Messi é velho, baixo e devagar. Como ainda domina a Copa do Mundo?
O camisa 10 da Argentina faz varredura do campo e do posicionamento dos adversários (vermelho) e dos companheiros (azul) para reunir informações valiosas antes da bola chegar a seus pés. Gráfico gerado por IA /Claude /Anthropic.

Nada disso parece notável até você perceber que ele já reuniu informações que outros jogadores ainda vão buscar, ou pelo menos são menos habilidosos em encontrar.

Quando a bola chega a seus pés, Messi já sabe onde estão os zagueiros e seus companheiros, e onde os espaços irão se abrir. O domínio, o giro, o passe que divide a defesa: tudo isso é a parte fácil. A parte difícil acontece antes mesmo dele tocar na bola.

Isso é algo que podemos medir.

Por mais de uma década, temos estudado como os jogadores de futebol coletam informações antes de receber a bola. Trabalhando com atletas de academias de base até profissionais seniores, colocamos pequenos sensores de movimento na parte de trás de suas cabeças e registramos com que frequência e com que amplitude eles se viravam para olhar ao redor durante uma partida.

Estávamos medindo o que chamamos de exploração visual — ou, mais simplesmente, varredura.

Fizemos uma pergunta simples: quanto os jogadores olham ao redor antes da bola chegar até eles, e isso importa?

A descoberta foi consistente e clara. Os jogadores que varriam o campo com mais frequência nos segundos antes de receberem a bola eram mais rápidos para executar o passe seguinte, tinham a maior probabilidade de girar com a bola em vez de jogá-la com segurança para trás, e maior probabilidade de efetuar um passe vertical que realmente ameaçasse o adversário.

As informações que reuniam antes da chegada da bola moldavam o que eram capazes de fazer quando a bola chegava. A varredura é como um jogador obtém essa informação em primeiro lugar.

Nosso trabalho separa dois propósitos da varredura. O primeiro é a orientação: olhar ao redor para descobrir o que o campo inteiro oferece, quais opções existem, onde está o perigo e o que pode ficar disponível.

O segundo é a especificação: a observação mais refinada e posterior que orienta a execução de um passe.

A orientação vem primeiro e é a que tendemos a negligenciar, tanto na pesquisa quanto no treinamento, porque ocorre longe da bola, quando nada dramático parece estar acontecendo. Ainda assim, é a base. Você não pode mirar um passe que nunca viu existir. Cruyff colocou assim:

“Só existe um momento em que você pode chegar a tempo. Se você não estiver lá, você está ou cedo demais ou tarde demais”.

É aqui que Messi deixa de ser uma anomalia e se torna o exemplo mais claro do que o esporte recompensa. Ele nunca superou os adversários principalmente com o corpo. Ele os vence com o tempo, e ganha esse tempo com uma percepção antecipada.

Se ele é mais lento, isso não importa, porque ele não está correndo contra ninguém — ele faz isso acontecer por meio de uma percepção melhor do antes, sem precisar correr. O corpo mais baixo, mais lento e envelhecido não é uma desvantagem que ele supera com genialidade. É um sinal de que o corpo nunca foi o evento principal.

A habilidade que você pode desenvolver

Claro, a varredura não é toda a história. Técnica, experiência e tática de equipe também importam. Mas sem informação oportuna, essas qualidades raramente têm chance de se manifestar.

Há uma lição nisso: a percepção é algo que podemos desenvolver, deliberadamente, em jogadores que nunca serão os mais rápidos ou os mais altos.

Treinadores já percebem isso quando gritam “olhe por cima do ombro” para um jogador prestes a ter um problema ou perder a noção [do posicionamento] de um adversário.

Nossos dados sugerem que o hábito de varrer o campo antes da bola chegar pode ser treinado desde cedo.

Onde a grandeza realmente vive

Passamos um século construindo atletas na academia, mas bem menos tempo desenvolvendo aquilo que Messi faz em abundância.

Portanto, da próxima vez que alguém se perguntar como um homem de 39 anos, com apenas 1,70 m de altura, ainda domina uma Copa do Mundo, observe a cabeça dele, não os pés.

A grandeza nunca esteve escondida no corpo. Sempre esteve no olhar.

Artigo original (em inglês) publicado por Gert-Jan Pepping & Thomas McGuckian na The Conversation AU.

SOBRE O AUTOR
Gert-Jan Pepping

Professor de Ciências do Movimento Humano na Universidade Católica Australiana. Formação acadêmica em ciência do esporte e do exercício, com Ph.D. focado em acoplamento percepção–ação e na abordagem ecológica do desempenho qualificado.

SOBRE O COLABORADOR
Thomas McGuckian

Professor Sênior com interesse nas interseções entre psicologia, ciência do exercício e do esporte, segurança viária e tecnologia, com Ph.D. em Ciências do Esporte e do Exercício pela Universidade Católica Australiana.

Declaração de Transparência

Gert-Jan Pepping recebe financiamento da Academia de Esportes de Queensland e do NHMRC.

Thomas McGuckian não presta consultoria, não possui ações, não recebe financiamento e nem trabalha para qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo, e não declarou afiliações relevantes além de seu cargo acadêmico.

Parceiros

A Universidade Católica Australiana fornece financiamento como membro da The Conversation AU.


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