Empresas grandes dão sinais de retrocesso nas metas climáticas
Os últimos dois anos foram marcados por uma percepção crescente de que as empresas grandes estão dando sinais de retrocesso em suas metas climáticas, com reportagens da imprensa — incluindo as nossas — descrevendo as metas que estão se tornando menos ambiciosas, os prazos que são adiados e os objetivos sendo abandonados silenciosamente.
Um estudo baseado no que os pesquisadores afirmam ser o banco de dados mais abrangente e atualizado sobre os compromissos corporativos de emissão net zero sugere que a situação talvez não seja tão sombria. O número de compromissos permaneceu estável, aponta o estudo. E, embora existam evidências claras de retrocesso em algumas áreas, a situação é mais complexa do que pode parecer.
Os resultados foram extraídos do Net Zero Tracker, um consórcio de pesquisa que é independente e tem sedes na Europa e nos Estados Unidos. Os dados compilados por centenas de voluntários abrangem quase duas mil das maiores empresas de capital aberto do mundo.
Nos Estados Unidos, a proporção de empresas com metas de emissão net zero caiu apenas um ponto percentual, chegando a 51%, em comparação com o relatório do ano passado, enquanto a União Europeia registrou um aumento equivalente, chegando a 85%. A principal novidade veio da China, onde a cobertura de metas de emissão net zero cresceu para 28% das empresas monitoradas, contra 24% em 2025 e 18% no ano anterior. Em todas as regiões, o total permaneceu praticamente estável, em 64%.
“Não há uma retirada em massa”, afirmou Louise Bammel, analista de políticas do NewClimate Institute, na Alemanha, uma das organizações parceiras do rastreador.
Prevalência dos retrocessos
Quando Bammel e seus colegas concentraram a análise nas mudanças feitas pelas 50 maiores empresas em suas metas, surgiram evidências mais específicas de retrocesso. (O estudo define retrocesso como a realização de mudanças “predominantemente negativas” em metas climáticas existentes, como restringir o escopo das emissões abrangidas ou transformar um compromisso em uma aspiração.)
- Quarenta e três das 50 maiores empresas têm metas. Nesse grupo, 20 parecem estar retrocedendo. A prática foi mais acentuada entre as instituições financeiras, com 11 das 18 empresas monitoradas apresentando evidências de retrocesso. O resultado não surpreenderá os especialistas do setor de sustentabilidade: uma iniciativa importante da indústria, a Net Zero Banking Alliance, encerrou suas atividades há cerca de um ano, após a saída de vários membros.
- Entre as outras empresas que possuem metas, nove apresentaram evidências de retrocesso: quatro empresas de petróleo e gás, duas companhias de tecnologia, uma fabricante de semicondutores, uma varejista e uma empresa farmacêutica. Bammel se recusou a identificar essas organizações.
- As formas mais comuns de retrocesso foram manter as metas, mas enfraquecê-las, seguidas pelo abandono de um objetivo. Juntas, essas duas práticas representam quase nove em cada dez das mudanças negativas observadas.
Razões para os retrocessos nas metas climáticas
O estudo, um dos primeiros a analisar os retrocessos, também revelou os desafios para avaliar a intenção por trás de uma mudança.
Entre as metas estabelecidas pelas 50 maiores empresas, a maioria foi definida em 2020 e 2021. Desde então, as empresas aprenderam muito. Quando a PepsiCo rebaixou suas metas em 2025, por exemplo, a empresa citou a falta de apoio dos formuladores de políticas públicas.
Às vezes, observou Bammel, adiar uma meta ou enfraquecê-la de alguma outra maneira demonstra que uma empresa analisou cuidadosamente os fatores principais — emissões e opções de mitigação — e concluiu que um adiamento é a única opção realista. “Isso mostra que uma empresa está, de fato, levando sua meta a sério”, afirmou.
Bammel contrastou essa abordagem com a adotada por empresas de tecnologia que mantêm suas metas mesmo enquanto os investimentos em data centers fazem suas emissões aumentarem. As empresas Microsoft e Google, por exemplo, continuam comprometidas com as metas até 2030, apesar de terem relatado aumentos anuais das emissões: de 25% e 18%, respectivamente.
“Se você leva uma meta a sério, você precisa atualizá-la”, afirmou Bammel.
Artigo original (em inglês) publicado por Jim Giles na Trellis.

SOBRE O AUTOR
Jim Giles
Vice-presidente e editor-chefe no Grupo Trellis. Seus artigos já foram publicados no New York Times, Atlantic, Economist, Guardian e Nature, entre outros. Graduado no Programa de Liderança Executiva Sulzberger da Universidade de Columbia em 2017. Também trabalhou como consultor estratégico para várias organizações de grande impacto, incluindo a European Climate Foundation e a Wellcome Trust.