Arquitetura espacial: quem controlará a vida fora da Terra?
Durante a maior parte da era espacial, os arquitetos puderam fantasiar livremente sobre a construção fora da Terra. Vilarejos lunares infláveis e cúpulas marcianas de vidro podiam ser esboçados sem que ninguém precisasse se preocupar muito com quem limparia os banheiros.
Esse luxo está desaparecendo à medida que começamos a considerar seriamente a possibilidade de viver no espaço. No próximo ano, a primeira estação espacial comercial, a Haven-1, será lançada. Alguns meses depois, ela será acompanhada por uma segunda, da Axiom.
A NASA retornará à Lua em 2028 com planos para começar a construir uma base semipermanente. Um reator nuclear virá em seguida, até o final da década, assim como poderá acontecer com os chineses, e, quando a Estação Espacial Internacional (ISS) for aposentada, em 2030, haverá dezenas de estações privadas disponíveis para substituí-la.
E isso antes mesmo de falarmos sobre Elon Musk e sua ambição de criar uma cidade com um milhão de pessoas em Marte até a década de 2050.
Mas levar as pessoas ao espaço é uma coisa. Criar um lugar onde elas realmente queiram viver é algo completamente diferente.
É aí que entra a arquitetura, e empresas como a Foster + Partners, BIG, SOM (na imagem acima) e outras já voltaram sua atenção para o que pode ser possível além da Terra. As visões elegantes de 2001: Uma Odisseia no Espaço e outras obras semelhantes estão agora dando lugar à realidade complicada da existência cotidiana e aos problemas da construção extraterrestre.
Os desafios mais óbvios são formidáveis, mas já foram amplamente discutidos: como proteger as pessoas da radiação? De onde virá o oxigênio? Como reciclar a água?
Em grande parte, os engenheiros já responderam a essas perguntas. Mas, quando se pede às pessoas que vivam em algum lugar durante anos em vez de apenas visitá-lo, outras questões aparecem, por exemplo: quem fica com uma janela? Isso pode parecer algo trivial. Não é.
Uma janela espacial é cara e representa um ponto possível para falhas. Os engenheiros prefeririam um tubo sólido de metal.
No entanto, os astronautas valorizam enormemente suas vistas da Terra, e observar o planeta é uma das maneiras favoritas de relaxar a bordo da ISS. Na verdade, a possibilidade de olhar para fora é considerada essencial para o moral da tripulação.
Como seria um habitat espacial
Então, imagine o primeiro assentamento lunar. Há seis quartos, mas apenas duas janelas. Quem ganha de ficar com elas? O comandante? O turista que paga mais? Todos vão ganhar dez minutos por dia para observar a Terra?
Ou a janela pertence a todos, porque algo tão precioso não pode se tornar uma propriedade privada?
O mesmo se aplica a quase todas as decisões relacionadas ao espaço. Quem fica com um quarto com porta? Qual o tamanho dele? Os habitantes podem personalizá-lo? Onde alguém pode ir se quiser ficar sozinho? Onde poderá encontrar outras pessoas? Quem vai controlar o termostato, a iluminação ou a música?
Em uma base lunar com 30 pessoas, essas questões podem se tornar motivos de discórdia. Já houve pelo menos um caso de esfaqueamento na Antártica, portanto, o perigo é real.
E isso antes mesmo de decidirmos quem terá o direito de administrar o lugar. Você preferiria um órgão governamental ou uma empresa como a SpaceX ou a Blue Origin, que, afinal, estão fabricando os foguetes que provavelmente transportarão as pessoas e os materiais para a Lua e Marte?
Certamente, a história deveria nos deixar cautelosos em relação a quem terá o poder de determinar como será a vida fora da Terra. Tomemos como exemplo a Fordlândia, de Henry Ford, estabelecida na Amazônia brasileira na década de 1920 para garantir o fornecimento de borracha.
Ela foi concebida não apenas como um assentamento industrial, mas também como uma tentativa de exportar a versão de Ford da vida americana: os trabalhadores recebiam moradias da empresa — segregadas, é claro —, mas tinham dietas prescritas e precisavam seguir regras rígidas de comportamento. Os administradores americanos tinham água encanada e desfrutavam das melhores vistas, enquanto que os brasileiros dependiam de poços.

A cidade empresarial é um modelo antigo: moradia, emprego, lojas e infraestrutura, tudo controlado pela mesma organização. Na Terra, pelo menos, você pode se mandar de onde você estiver. Mas o que significa “ir embora” quando a saída fica a quilômetros de distância, do outro lado da Lua, e sair sem permissão pode significar morrer?
A arquitetura extraterreste
Isso importa porque a economia espacial aponta precisamente para esse perigo. Os primeiros assentamentos extraterrestres exigirão investimentos imensos. Os governos financiarão alguns deles, mas as empresas fornecerão a maior parte do transporte, das comunicações e dos habitats.
A necessidade comercial pode gradualmente se transformar em governança. A Companhia das Índias Orientais oferece um precedente histórico extremo: uma empresa comercial que acumulou poderes tributários, administrativos e militares à medida que seus negócios deslizaram para a tirania.
O espaço poderia facilmente testemunhar uma versão do século XXI desse cenário. Imagine um assentamento marciano no qual uma única empresa fornece seu emprego, sua moradia, seu oxigênio, sua água, suas comunicações e sua passagem de volta. Você é, simultaneamente, trabalhador, inquilino e cliente. A arquitetura poderia tornar física essa relação desigual, como aconteceu em Fordlândia.
Nada disso é um argumento contra os voos espaciais comerciais. Sem capital privado, seria impossível realizar uma parte grande da aceleração extraordinária que está ocorrendo agora.
Os arquitetos tampouco podem ignorar as leis da física. Uma janela é, de fato, mais perigosa do que uma parede.
Mas, se vamos começar a produzir uma arquitetura extraterrestre, ela precisa fazer mais do que garantir a sobrevivência. Um habitat que mantém o oxigênio, mas degrada progressivamente a saúde de seus habitantes, já fracassou.
Uma iluminação que respeite o ritmo circadiano, vegetação, privacidade, vistas, espaços de lazer e lugares para rituais não são elementos decorativos dos quais seja possível abrir mão em nome da redução dos custos. Eles contribuem para a capacidade das pessoas de funcionar e manter a sanidade mental.
É por isso que os arquitetos deveriam debater — e espera-se chegar a um consenso — sobre os padrões de projeto extraterrestre antes que os assentamentos existam. Eu diria que chegou a hora de fazer isso.
O perigo não é que nossos primeiros assentamentos extraterrestres pareçam pouco futuristas. É que reproduzam os piores modelos terrestres: alojamentos para trabalhadores, condomínios fechados, cidades empresariais e enclaves de luxo. Só que, desta vez, com câmaras de descompressão.
Por outro lado, raramente os arquitetos têm a oportunidade de estabelecer os princípios de todo um ambiente construído antes que ele exista. Aqui, podemos fazer isso.
Devemos aproveitar essa oportunidade para gerar perguntas difíceis agora, enquanto as respostas ainda são baratas. Quem é o proprietário do habitat? Quem pode modificá-lo? O que constitui uma moradia espacial aceitável?
O que deve permanecer como espaço comunitário? Qual grau de privacidade pode garantir a dignidade? E, sim, quem fica com uma janela?
Se deixarmos essas questões para quando os foguetes chegarem por lá, alguém já terá respondido por nós. E talvez você não goste de quem será essa pessoa.
Fonte: Dezeen
Este texto foi traduzido diretamente do artigo original publicado em inglês por Jonathan Morrison no site da Dezeen, a qual detém os direitos autorais sobre o mesmo e proíbe que ele seja reproduzido a partir do site da Sustenare News. Caso deseje republicar algum artigo da Dezeen, por favor, leia os termos dos direitos autorais da empresa.

SOBRE O AUTOR
Jonathan Morrison
Jornalista especializado em arquitetura e radicado em Londres, Jonathan foi correspondente de arquitetura do jornal The Times. Ele escreveu sobre assuntos tão diversos quanto a vida em Marte, lasers para destruir drones e estádios de futebol que custam bilhões. Seu primeiro livro, How to Build a Space Station, foi publicado em setembro de 2026.