O fracasso da transição energética atual na visão de Adam Smith

Imagem do economista Adam Smith debaixo de um céu com nuvens na cor salmão ilustra o post sobre o fracasso da transição energética atual na visão de Adam Smith.
Estátua de Adam Smith. As futuras COPs devem aprender com ele se quiserem reverter 30 anos de fracasso da transição energética e mudar a trajetória das emissões antes que seja tarde demais. Crédito: K. Mitch Hodge /Unsplash.
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Em novembro de 2025, a ONU realizou sua 30a Conferência sobre Mudanças Climáticas (COP30) em Belém, Brasil, marcando três décadas de negociações anuais para abordar os impulsionadores humanos do aquecimento global. No entanto, desde a primeira reunião da COP em 1995, as emissões globais de carbono dos combustíveis fósseis cresceram de 23 bilhões de toneladas para um recorde histórico de 38 bilhões de toneladas no momento em que líderes de nações de todo o mundo foram até Belém para suas negociações anuais. Isso prova que, apesar da suposta ação climática crescente, as emissões de carbono continuam subindo a taxas astronômicas.

Em um sistema capitalista, não é de surpreender que o mesmo motivo de lucro que estimula o investimento em energia de baixo carbono também impulsione o investimento contínuo em combustíveis fósseis. Contudo, para ver por que o crescimento do capital tende a produzir um consumo cada vez maior, apesar da inovação tecnológica e de um aparente compromisso com o corte de emissões, precisamos retornar ao básico: voltar-se para os ensinos do livro A Riqueza das Nações, do filósofo social e economista político Adam Smith. Seu trabalho fundamental do final do século XVIII pode nos ajudar a entender as forças que estão por trás desse progresso estagnado.

O pior tipo de surpresa

As tendências nas emissões de carbono são gritantes. Embora tenhamos construído uma extensa infraestrutura para a energia renovável nos últimos 30 anos, informações do Banco de Dados do Consumo Mundial de Energia mostram que a energia gerada pelas fontes renováveis, biocombustíveis e nuclear mais do que dobrou.

No entanto, houve ganhos em eficiência energética. Somos muito mais eficientes em termos energéticos do que éramos há 30 anos. De acordo com dados do Banco de Dados do Consumo Mundial de Energia e do Banco de Dados do Projeto Maddison, estimamos que para produzir um dólar em bens e serviços em 2018 exigia apenas dois terços da energia gasta em 1990.

Então, se estamos produzindo mais energia renovável e usando-a de forma mais eficiente, como é que as emissões de carbono continuam subindo?

Olhando mais para trás no tempo de todas as fontes de energia (não apenas de baixo carbono), percebe-se que o crescimento da energia de baixo carbono não foi acompanhado por uma diminuição no uso de combustíveis fósseis. O capitalismo não estimulou a transição de uma fonte de energia para a outra. Em vez disso, novas fontes de energia foram adicionadas ao estoque de energia disponível.

O quadro da eficiência energética é o mesmo. Melhorou substancialmente em 2018: para produzir um dólar em bens ou serviços foi preciso apenas 40% da energia necessária em 1820, mas o consumo total de energia ainda aumentou. Gráfico adaptado de Resilience.Org.

As regras do capital: dinheiro, dinheiro, dinheiro

Quando Adam Smith escreveu sobre o capitalismo, ele estava capturando a dinâmica central que atualmente ainda molda a vida econômica. Combine suas ideias com a pesquisa de hoje sobre o uso de energia, e uma imagem clara emerge do porquê nosso uso de energia continua subindo.

Os economistas ecológicos argumentam que toda a atividade econômica depende, no final das contas, da mudança e remodelação de materiais. Seja a mineração, a reestruturação de metal para fazer um laptop, o leite fumegante para um latte, ou o combustível em chamas para alimentar um barco de pesca, tudo funciona com energia. Visto dessa forma, o crescimento econômico é realmente uma história de inovação e investimentos em máquinas que trazem novas formas de energia para a produção, ou nos ajudam a usar a energia de forma mais eficiente. No livro A Riqueza das Nações, Smith já acompanha ambas as tendências: como novas formas de energia podem impulsionar o crescimento e exemplos de processos que se tornaram mais eficientes em termos energéticos.

Por meio de um conto apócrifo de um menino empregado para abrir e fechar a válvula de um carro de bombeiros, ele ilustra um exemplo inicial de inovação. Nesta história, o menino encontra uma maneira de conectar as válvulas para que elas “abram e fechem sem sua assistência”. Do ponto de vista da economia ecológica, podemos ler isso como um ganho de energia-eficiência. Antes da inovação do menino, o sistema exigia duas entradas de energia primária: a energia fóssil para alimentar a máquina e a energia do menino. Com a inovação, a máquina requer apenas a energia de combustíveis fósseis e, portanto, é mais eficiente.

Para explicar como a maquinaria impulsiona o crescimento econômico e a produtividade, [Smith] compara as produções italiana e inglesa de um tecido da época. Os fabricantes têxteis italianos usaram moinhos de vento e água, enquanto que os fabricantes têxteis ingleses dependiam do trabalho manual e não da tecnologia mecânica. Uma fonte de energia (mão de obra humana) substitui a outra, mais poderosa: o vento e a água que alimentavam as usinas italianas.

Uma das contribuições principais de Adam Smith para a economia foi o avanço do conceito de “capital”. Antes de Smith, o capital era principalmente considerado sinônimo de dinheiro investido na produção. Mas A Riqueza das Nações motivou novas formas de definir o capital. No livro, Smith argumentou que os bens físicos, como a maquinaria, podem servir de capital quando usados para gerar lucro. Para Smith, “a única razão” pela qual um capitalista investiria em máquinas era para gerar lucro. Por que os capitalistas têxteis italianos do século XVI investiram em vento e moinhos de água? Por que os capitalistas globais modernos investem em turbinas eólicas?

Invista em energia de baixo carbono e desafie a motivação para o lucro

A implicação dos insights de Adam Smith é que uma parte da transição de baixo carbono – investir em energia de baixo carbono e eficiência energética – é relativamente direta. Isso ocorre porque esses investimentos já se encaixam confortavelmente dentro de um sistema econômico capitalista: eles estavam acontecendo antes mesmo das primeiras reuniões da COP e provavelmente continuarão mesmo com o fim delas. Em outras palavras, esse tipo de investimento se alinha com o comportamento da busca por lucro e, portanto, é simplesmente “bom capitalismo”, em vez de algo que depende das negociações internacionais sobre o clima.

À medida que o capital persegue os lucros, devemos esperar ver investimento em energia renovável, afinal, ela acrescenta mais energia à produção. Isso permite que você faça mais coisas, o que é útil para obter lucro. Também devemos esperar ver inovações na eficiência energética. Isso é útil para cortar custos, o que é útil para obter lucro. Mas também devemos esperar ver investimentos em combustíveis fósseis – eles trazem uma grande quantidade de energia para a produção, o que é útil para obter lucro. E quando a eficiência energética economiza energia em um processo, os capitalistas usarão essa energia em outro processo para fazer mais coisas e obter mais lucros.

Portanto, não há nenhum mecanismo dentro do capitalismo que leve os capitalistas a deixar a energia no solo. Isso tem que vir de fora. Os movimentos de decrescimento e pós-crescimento apontam para maneiras de produzir e consumir que não dependem de capital ou lucros. As futuras COPs devem aprender com isso e com Smith se quiserem reverter 30 anos de fracasso e mudar a trajetória das emissões antes que seja tarde demais.

Artigo original (em inglês) publicado por Simon Mair na Resilience.Org – um programa do Post Carbon Institute.

SOBRE O AUTOR
Simon Mair

Economista ecológico da Universidade de York, no Reino Unido, que trabalha para entender a economia atual, a fim de construir uma melhor. Seus interesses de pesquisa incluem a economia pós-crescimento e decrescimento, pós-capitalismo e economias alternativas. Líder de um programa de Mestrado em Sustentabilidade Corporativa e Gestão Ambiental e líder de módulos para Sustentabilidade Corporativa, Negócios e Meio Ambiente.


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